Terra Magazine

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Desconstruindo o lendário Carlson Gracie

Tags:, - Guga Noblat às 13:55:29

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Carlson Gacie contra Waldemar Santana nos tempos áureos do Vale Tudo

Por Fabio Quio Takao, pesquisador e colaborador do blog:

A criação

Carlson Gracie possuía todos os elementos de um gênio: dom natural, personalidade marcante, atitudes polêmicas e certa dose de indisciplina. Filho mais velho de Carlos Gracie e Carmem, nasceu em 13 de agosto de 1933 e seu primeiro nome foi Eduardo. Como Carlos Gracie estudava a numerologia, resolveu após algum tempo mudar o registro do filho que passaria a se chamar Carlson. Todos os filhos de Carlos deveriam ter as letras iniciais “C” ou “R”, por considerar que a força dessas letras poderia ser transmitida aos filhos.

Aos cinco anos participou de seu primeiro campeonato, em 1950 aos 17 anos foi campeão Carioca de Jiu Jitsu. Ainda aos 17 anos fez sua primeira luta profissional contra o japonês Sakai. Essa luta foi preliminar a luta de Hélio Gracie contra Kimura. Carlson pesava 67kg contra 92kg do japonês, e mesmo assim a luta acabou terminando em empate.

Por ser o mais velho da segunda geração da família Gracie, Carlson tinha a responsabilidade natural de ser o novo campeão da família, o que fez com extrema naturalidade. No início da carreira enfrentou diversos lutadores famosos no Rio de Janeiro como o capoeirista Cirandinha e Passarito, sempre com diferença de peso acima de 15kg. A violência de seus combates e suas vitórias deram tanto destaque na imprensa que logo ficou conhecido como “O Garotão”.

A genialidade de Carlson se mostrava não só em suas lutas, onde quase sempre era o mais leve, mas também em suas atitudes que mostravam a serenidade com que encarava os mais perigosos lutadores.

Nas suas primeiras lutas, dormia 15 minutos antes, tamanha era sua tranqüilidade. Com o passar do tempo foi ficando avesso aos treinos duros e obrigava Carlos e Hélio a manterem extrema vigilância nos períodos que antecediam as lutas. Uma das instruções de Carlos era que mantivesse abstinência sexual antes das lutas, o que era praticamente impossível, visto seu perfil boêmio e sua fama na cidade.

A consagração

A luta que elevou Carlson ao nível de ídolo foi a seqüência do capítulo mais dramático vivido pela família Gracie: a derrota de Hélio Gracie  para Valdemar Santana.

Valdemar Santana praticava luta-livre desde os 18 anos e começou a treinar com Helio Gracie aos 21 anos. Passou a trabalhar como roupeiro da academia para pagar as mensalidades. Depois de desentender com Hélio, Valdemar desafia seu mestre e após 3 horas e 45 minutos, o combate mais longo da história, Valdemar venceu Hélio Gracie.

Segundo o próprio Carlson, Valdemar era tido como um dos lutadores mais duros da academia Gracie e foi seu companheiro não só nos treinos como também viraram amigos. Porém após a derrota do tio, Carlson se vê obrigado a resgatar a honra da família. 

A luta aconteceu em 8 de outubro de 1955 no estádio do Maracanãzinho –Rio de Janeiro. Carlson e Valdemar lutariam de Kimono e nas regras do Jiu Jitsu, pois o Vale-Tudo estava proibido na cidade. A luta teria cinco rounds de 10 minutos e apesar da superioridade técnica de Carlson, a luta terminou empatada.

A segunda luta entre Carlson e Valdemar também foi no Maracanãzinho e aconteceu em 21 de Julho de 1956. Devido a pressão feita e ao sucesso da primeira luta, o chefe de polícia permitiu que a luta fosse um Vale-Tudo sem kimono e com seis rounds de 10 minutos.

Carlson, 23 anos pesou 75,700kg e Valdemar, 26 anos, pesou 77,800kg. Valdemar contava com uma musculatura e força física superior e pressionou Carlson no primeiro Round. Porém a supremacia técnica e os golpes mais precisos de Carlson deixam transparecer que a vitória seria inevitável. Valdemar, já com o rosto inchado, começa a sair do ringue fazendo que a luta fosse repetidamente interrompida. Aos 9 minutos do 4º round, Valdemar e Carlson caem do ring e somente Carlson retorna. Com a desistência do “Pantera Negra” (apelido dado a Valdemar por Hélio Gracie), Carlson Gracie conquista o que seria sua mais importante vitória e enfrentaria Valdemar mais quatro vezes, vencendo três e empatando uma.
 
A vida agitada e os novos desafios

A fama de Carlson atinge tal magnitude, que nos anos 50, foi preso um impostor que entrava nas festas cariocas comendo e bebendo de graça alegando ser Carlson Gracie.

Em 26 de Setembro de 1959, Carlson casa-se com Ione de Carvalho e o acontecimento teve grande destaque na imprensa. A gravidez de Ione antes do casamento foi devidamente acobertada, devido aos rígidos padrões morais da época, e foi o verdadeiro motivo do casamento. Isso fez com que o casamento durasse somente um ano e seria o primeiro dos muitos relacionamentos conturbados de Carlson.

Na carreira, Carlson ainda teria pela frente lutadores que foram considerados por ele mesmo com os mais difíceis adversários: Ivan Gomes e Euclides Pereira. O sucesso do Vale-Tudo já era tamanho no Rio de Janeiro, que em 1958 estreou um programa de lutas na TV chamado “Heróis do Ringue”.

No nordeste o Vale Tudo também era conhecido e  Ivan e Euclides já eram ídolos graças ao programa “TV Ringues Torre” e ambos treinavam diversas modalidades como Boxe, Judô e até o Jiu Jitsu Gracie, através de alunos que aprenderam com George Gracie em suas viagens.

Ivan Gomes e Carlson se enfrentaram em 28 de dezembro de 1963 e a luta durou 30 minutos foi uma das mais técnicas e violentas do Vale-Tudo, com Carlson pesando 76Kg e Ivan 98kg. Pela primeira vez um adversário atinge o rosto de Carlson e Ivan também saiu muito machucado, com o combate terminando empatado.

Ivan reconhece a técnica de Carlson e após três meses, visita o Rio de Janeiro e faz questão de conhecer a Academia Gracie. Carlson acaba ficando amigo de Ivan e o convida para montar uma academia em sociedade no Rio de Janeiro. 

Foi em 06 de setembro de 1968 em Salvador no estádio da Fonte Nova que Carlson com 35 anos, teve sua única derrota. Euclides Pereira era o adversário e já havia empatado com Ivan Gomes e vencido Valdemar Santana além de ter treinado Capoeira, Boxe e Judô com Takeo Yano. Euclides pesando 75 kg foi o único lutador a entrar no ringue pesando menos que Carlson. 

A luta teve seis rounds foi muita equilibrada, mas a vitória foi dada a Euclides por pontos e foi muito contestada por Carlson. A princípio, a luta seria decidida somente por desistência ou nocaute, mas um pouco antes da luta, foi adotada a contagem de pontos. Euclides tentou aplicar vários golpes aumentando seu placar e ao acertar o nariz de Carlson, o sangramento impressionou os juízes que acabaram por dar a vitória a Euclides.

A Dissidência

Em 18 de Dezembro de 1970, Carlson encerrou sua carreira lutando com Valdemar Santana. Afastado dos ringues há cinco anos, a luta foi em Brasília e termina empatada. Carlson já havia lutado 19 vezes profissionalmente, sendo que somente em duas delas foram adotadas as regras do Jiu Jitsu.

Aos 37 anos, após sua incrível trajetória como competidor, muitos pensavam que Carlson já teria feito sua contribuição para o mundo das lutas, porém como característica marcante da família, a superação das expectativas veio como Carlson o Treinador.

A história de Carlson como treinador havia começado após sua luta com Ivan Gomes. Os dois abrem uma academia em 1963 em Copacabana, porém após um ano, Carlson desiste e entra em sociedade em outra academia com Hélio Vigio. Apesar do grande sucesso como lutador, Carlson sempre repassava todo o dinheiro de suas bolsas para Hélio Gracie que administrava a academia Gracie. Com isso, Carlson aos 30 anos não tinha nem carro e nem imóveis e, além disso, gastava muito dinheiro em noitadas e brigas de galo, paixão que manteve até o fim da vida.

Em suas academias, os preços eram sempre abaixo das outras academias e em diversos casos, ele não cobrava mensalidades quando reconhecia algum talento que não tinha condições de pagar mensalidades. Isso tudo só não o levou a falência graças a sua segunda esposa, Sílvia, que conseguia organizar a parte financeira de sua vida. Infelizmente Sílvia morre em um acidente de carro em 1967 e Carlson casa-se novamente com Marly. 

Em outubro de 1950, a Academia Gracie organiza o primeiro Campeonato de Jiu Jitsu do estado do Rio de Janeiro, mas por problemas de organização e a desistência das Academias Augusto Cordeiro (Judô), Azevedo Maia e Academia Fadda, o campeonato não é reconhecido pela Federação Metropolitana de Pugilismo. Mesmo assim o campeonato é realizado entre as Academias de Carlos Pereira, Academia Gracie e um único aluno da academia Cordeiro.

Em Junho de 1973 o Jiu Jitsu é reconhecido pela Confederação Nacional de Desportos como esporte oficial. Agora a Federação de Jiu Jitsu da Guanabara podia organizar seus campeonatos oficiais. Em Setembro acontece o primeiro campeonato infanto-juvenil com 200 inscritos. Em dezembro do mesmo ano acontece o primeiro campeonato adulto com130 inscritos e a presença de 11 academias do Rio de Janeiro e São Paulo.

Estava dado o primeiro passo para início das dissidências dentro da família Gracie. Sendo Carlson um competidor nato, era natural que as discordâncias com Hélio Gracie aconteceriam.

Cabia a Carlos apenas a orientação alimentar e empresarial. Apesar da união da família em prol do Jiu Jitsu, Hélio Gracie sempre privilegiou a hereditariedade, portanto seria natural que quisesse que o posto de novo campeão fosse de seu primogênito de sangue: Rorion. Afinal Carlson era “apenas” seu sobrinho. Por muito tempo esse desejo de Hélio ficou adormecido e o talento de Carlson não deixava dúvidas. Porém os filhos de Hélio já tinham idade suficiente para tentar buscar seu espaço e a indisciplina de Carlson fizera com que Hélio deixasse cada vez mais Carlson à revelia. Os treinos de Carlson eram cada vez mais raros e seus adversários cada vez mais preparados.

Para Hélio Gracie, qualquer professor que tentasse abrir uma academia própria para melhorar os rendimentos, era considerado traidor. Carlson já havia feito isso e para piorar a situação, em 1976 no Torneio da fusão do Estado dda Guanabara com o Estado do Rio de Janeiro, o melhor aluno de Carlson, Sérgio Íris vence Rorion, primogênito de Hélio.

Carlson comemorou muito e a relação com o tio Hélio piorou ainda mais. A Academia Gracie administrada então por Hélio Gracie, passa a ter uma fama de priorizar os treinos mais graduados somente para os filhos de Hélio.

O Treinador

 Carlson, assim como Conde Koma e seu tio Hélio, refinou seu Jiu Jitsu na sua forma mais pura, usando-o em combates sem regras. Nesses combates, Carlson se mostrou completo, pois vencia finalizando com estrangulamentos e chaves, mas também usava o Jiu Jitsu como caminho para aplicar socos e chutes, sem com isso sofrer golpes. Apesar dessa experiência única no Vale Tudo, foi no Jiu Jitsu esportivo que Carlson conquistou sua fama como treinador.

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Logotipo que ficou famoso no Rio de Janeiro nas décadas de 80 e 90

Foi na academia de Niterói que formou seu primeiro faixa preta, Serginho Íris e a partir disso, sua sede de títulos aumentava cada vez mais. Sempre envolvido em jogos de todos os tipos e brigas de galos, Carlson não era como Hélio e Carlos, que tinham o Jiu Jitsu como forma de Defesa Pessoal e ferramenta filosófica de aprimoramento da auto-segurança. Para Carlson, o Jiu Jitsu dava vazão ao seu espírito competidor e depois que o Jiu Jitsu esportivo foi instituído, Carlson queria a vitória dos alunos.

Alguns afirmam que o Jiu Jitsu praticado pelos alunos de Carlson era muito limitado e priorizava a força. Isso não é verdade, pois foi graças aos alunos de Carlson é que os alunos das Academias Gracie, Royler Gracie, Royce Gracie, Irmãos Machado, Marcelo Behring e Rickson Gracie puderam ter adversários à altura e a motivação para buscar evolução constante.

Uma característica que Carlson tinha como treinador era aproveitar o potencial do atleta. Se o lutador era bom em estrangulamentos, Carlson melhorava-os para que ganhasse as competições. Não fazia questão de melhorar seus pontos fracos e sim fazer com que os pontos fortes vencessem a competição.

Apesar de ter sido um atleta que não apreciava treinos duros e de ter um estilo de vida caótico, Carlson exigia dos alunos o contrário, ou seja, dedicação total nos treinos, sessões de preparo físico intenso e os famosos desafios Gracie continuaram de outra forma. Como a quantidade de campeonatos na década de 70 ainda era pequeno, seus primeiros faixa pretas como Carlos Rosado lembra que num dia qualquer sem aviso, Carlson trazia algum lutador de outra academia para testar seus próprios, fazendo com seus alunos estivessem sempre prontos.

Grande parte do estilo despojado e por vezes até mesmo desrespeitoso dos treinos de Jiu Jitsu atual são marcas deixadas por Carlson. Por outro lado, a obsessão pelo treinamento físico, a busca pela vitória a qualquer custo são marcas registradas que o mestre deixou no Jiu Jitsu. Durante a década de 70, 80 e parte da década de 90, a equipe de Carlson dominou todos os campeonatos. O exército que o treinador montara era, além de bem treinado, também superior em número, pois suas mensalidades ainda eram as mais baixas e caso o aluno trouxesse títulos, poderia até mesmo ficar isento das mensalidades. Foi o caso de Wallid Ismail, que veio de Manaus e morou na academia durante anos. Em troca, trouxe diversos títulos e talvez um dos mais importantes da década que foi a vitória de Walid sobre o então já tri-Campeão do UFC Royce Gracie.

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Antiga equipe de Carlson Gracie. Em pé da esq, p/ dir.: Murilo Bustamante, Fabio Gurgel (que não era do time), Wallid Ismail, Carlson Gracie. Sentados, da esq. p/ dir.: Zé Mário Sperry, Bebeo Duarte, Alan Goes , Ricardo Cavalcante

Podemos citar alguns de seus alunos mais importantes como Amauri Bitetti, Murilo Bustamante, Carlão Barreto, De La Riva, Cássio Cardoso, Allan Góes, José Mário Sperry, Bebeo Duarte e ídolos mais recentes como Vitor Belfort,  Ricardo Arona e Paulão Filho.

Como não poderia deixar de acontecer, o sucesso de sua equipe começa a incomodar e equipes como a Gracie Barra são montadas com a mesma metodologia para produzir campeões. Curiosamente, o lutador da família que mais defendeu o nome Gracie, agora era o inimigo a ser vencido pelo tio Hélio e pelos primos Rickson, Royler e pelo meio-irmão Carlos Gracie Jr.

A volta para o Vale-Tudo

 Em 1991, aconteceu um desafio público feito na TV por Wallid Ismail afirmando que nenhuma modalidade era capaz de vencer o Jiu Jitsu. As academias de Luta-Livre aceitaram o desafio e foi montado um time de Jiu Jitsu que incluíam dois alunos de Carlson: Wallid e Murilo Bustamante. Carlson orientou toda a equipe de Jiu Jitsu e os treinos foram em sua academia. Resultado: 3 vitórias para o Jiu Jitsu e 0 para a Luta-Livre.

Em 1996, com a explosão do UFC e do Vale-Tudo, Carlson decide se mudar para Los angeles. Sua primeira participação em Vale-tudo internacional foi no 1º Universal Vale-Tudo em Tóquio com a vitória de Wallid e Carlão Barreto.

Entre os destaques de sua equipe surge um novo fenômeno de 17 anos: Vitor Belfort. Em 1997 em sua estréia, Vitor vence de forma espetacular Tra Telligman e Scott Ferrozzo, ambos mais pesados.
 Carlson vai ao Japão e participa do lendário Pride com Allan Góes, Wallid Ismail e Carlão Barreto, mas no Brasil, sua equipe, sem sua liderança carismática não ia bem.

Provando do próprio remédio

Carlos Gracie teve características de personalidade marcantes que ajudaram a fundamentar a dinastia Gracie. Uma das principais era o nepotismo, ou seja, o desejo de passar seus conhecimentos e poderes aos herdeiros. Hélio Gracie, criado sob a filosofia de Carlos, excluiu algumas diretrizes, seguiu a risca outras e potencializou algumas. O privilégio com que Hélio tratava os filhos biológicos era uma marca que sempre deixou claro e foi sendo acentuada conforme o tempo passava. Um comportamento que Helio adotou também era exigir que os professores da academia Gracie se mantivessem como empregados a vida toda, na maioria das vezes recebendo salários que não permitiam que sustentassem suas famílias. 

Carlson nunca privilegiou seus filhos, e nunca concordou com a atitude do tio. Passa a ser rival declarado de Hélio nas competições devido à atitude protecionista do tio. Porém, sem perceber, comete o mesmo erro que sempre combateu. Como não conseguia transformar todo seu conhecimento em dinheiro, Carlson pagava mal seus atletas e não conseguia manter as contas em dia.

Com as bolsas do Pride e UFC em franca expansão, o time principal de lutadores percebe que a gestão financeira de Carlson não contemplava o sucesso financeiro e sim as glórias dentro do ringue. É nessa fase que rompe com Vitor Belfort, um dos mais queridos alunos. Além disso, em Abril de 2000 foi criada o que viria a ser uma das maiores equipes de MMA do mundo: a Brazilian Top Team.

Formada por Ricardo Libório, Zé Mario Sperry e Murilo Bustamante, a BTT atraiu muita atenção pelo quilate dos seus atletas. Alguns meses depois, Paulão Filho também entra para a equipe deixando Carlson furioso, expulsando publicamente os ex-alunos. Sua mágoa era tão grande que usava camisetas usando trocadilhos com os nomes dos ex-alunos. Tudo isso recheado com seu humor ácido.

Algum tempo depois se reconcilia com Vitor Belfort. O único que se mantivera ao lado do mestre seria Wallid Ismail. Em 2001 vai pra Chicago ajudar o filho Carlson Jr. a dar aulas e consegue formar uma última leva de lutadores.

Fruto talvez de sua indisciplina alimentar, adquire diabetes e problemas renais. Filho de Carlos Gracie, idealizador da Dieta Gracie, uma dos sistemas alimentares mais importantes do mundo, Carlson sempre que ficava doente recorria à dieta do pai, porém nesse momento isso não foi suficiente. É internado e alguns dias depois morre em 1º de fevereiro de 2006. Chegava ao fim a última luta do maior Técnico de Vale-Tudo e MMA do mundo.

As frases

Uma das maneiras de descrever a personalidade de Carlson é conhecer algumas de suas célebres frases. Nelas é possível perceber suas mágoas com desafetos, seu humor negro e seus exageros. Mas transparece também o eterno espírito imaturo e amor a arte do Jiu Jitsu.

“EU JÁ DISSE PARA OS EXPULSOS: MURILO BUSTAMANTE, RICARDO LIBÓRIO E JOSÉ MARIO SPERRY, O QUE ELES FIZERAM COMIGO FOI PIOR QUE ESTUPRAR A MINHA MÃE”
(Quando os ex-alunos montaram a Brazilian Top Team.)

“SE NÃO FOSSE EU, OS GRACIES ESTARIAM VENDENDO BANANA NO LARGO DO MACHADO”
(Comentando sobre a importância de sua vitória sobre Valdemar Santana, que havia ganahdo de Hélio Gracie).

“A ÚNICA ACADEMIA QUE CONSEGUE SUPERAR A ACADEMIA GRACIE É A MINHA! AÍ ELES FICAM DIZENDO QUE EU SOU DISSIDENTE, INIMIGO.”

“ESSES POLÍTICOS ESTÃO QUERENDO APARECER. PROIBIINDO O VALE-TUDO NO BRASIL.  É A MESMA COISA QUE PROIBIR O BASQUETE NOS ESTADOS UNIDOS.”

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domingo, 28 de novembro de 2010

Cara a cara com Mestre Candoca - um dos pais do Jiu Jitsu no estado de São Paulo

Tags:, - Guga Noblat às 19:02:28

(Foto Arquivo Pessoal)

Por Fabio Quio Takao, pesquisador e colaborador do blog:

Impecavelmente vestido, do alto dos seus 86 anos, Cândido Casalle ou Mestre Candoca concede essa entrevista exclusiva onde conta um pouco de sua trajetória que se funde com o início do Jiu Jitsu no estado de São Paulo.
 
Nascido em Santa Eudóxia-SP, mudou-se da fazenda onde nasceu para São Carlos onde começou a se interessar por Artes Marciais. O destino o levou ao encontro de George Gracie, o responsável pela implantação do Jiu Jitsu no estado de São Paulo. George Gracie graduou Candoca em 1961, que a partir dessa data dedicou sua vida a praticar e ensinar a mais eficiente arte marcial.

Testemunha de uma época onde a Arte Suave era tida acima de tudo como um sistema de defesa pessoal, Mestre Candoca ensina que as novas gerações do Jiu Jitsu não podem desvirtuar essa premissa.

Fabio Quio: Quando e como o Sr. entrou no mundo das artes marciais?
Mestre Candoca: Comecei na luta-livre por volta de 1942 em São Carlos-SP. Eu devia ter uns 20 anos e treinava com mais três lutadores. Num determinado treino, um deles quebrou uma costela numa queda e os treinos foram temporariamente encerrados. Passei então a praticar Judô (Meste Candoca é também faixa Preta de Judô 1º dan).

FQ: Como foi que o Sr. começou a treinar Jiu Jitsu?
MC: Após uns quatro anos, me mudei para Rio Claro e comecei a treinar com João Gonçalves “Peixinho“ que era aluno do George Gracie. O George dava aulas também, mas já estava passando os alunos para o Peixinho. Treinei com eles três anos. Por volta de 1957, o George muda-se para São Carlos, inclusive, fui eu quem fez a mudança, pois eu trabalhava com caminhão e era mecânico também. Após uns dois anos, o George mudou-se novamente para Araraquara, onde abriu uma academia. Ele mantinha aulas em Araraquara, São Carlos e Jaú. Nessa época eu também havia retornado para Araraquara e continuava com as aulas.

FQ: Como eram as aulas?
MC: A luta começava em pé e havia uma parte forte de defesa pessoal. Inclusive, as aulas de defesa pessoal eram tão apreciadas que havia um padre em Jaú que era aluno do George. Em Araraquara eu peguei uma grande amizade com o George. Ele tinha um DKW eu cuidava da manutenção do carro dele e dessa forma eu não pagava mais as mensalidades e ele não me pagava os consertos (risos). As minhas aulas eram individuais e ele vinha na minha casa, inclusive nessa mesma casa onde moro até hoje.
 
FQ: Quando o Sr começou a dar aulas?
MC:Quando o George saiu de Araraquara e foi para Catanduva, eu montei minha academia e apesar do Jiu Jitsu ser muito desconhecido e o Judo estar se desenvolvendo mais, tive muitos alunos. Tanto que cheguei a ir para o Rio de Janeiro e levar quatro alunos para um campeonato lá. Conheci a academia Gracie, o Carlos, o Carlson e todos os professores.

FQ: O Sr. Chegou a lutar Vale-Tudo?
MC: O Jiu Jitsu era mais voltado para a defesa pessoal e inclusive eu sou contra o Vale-Tudo que se pratica na atualidade. Acho uma violência desnecessária e que cria uma competitividade que não é saudável. No Jiu Jitsu eu treino com o adversário, mas ele passa a ser meu amigo.
Teve um episódio em Rio Claro, na academia do João Gonçalves “Peixinho”, onde um grupo de lutas “telecatch” de São Paulo, famosos por lutas marmeladas, desafiaram os lutadores de Jiu Jitsu. Foram aos jornais e fizeram um estardalhaço, mas na verdade ele nos proporam armar lutas combinadas. O Peixinho negou e disse que nós só lutariamos de verdade. Marcaram uma luta entre o Wandão, Adhi, Peixinho e Abdalla do Jiu Jitsu contra adversários do Telecatch. Na luta do Peixinho, ele aplicou uma chave de braço num tal de Tigre, que era campeão de braço de ferro. O Tigre, mesmo com a chave encaixada, levantou o peixinho do chão e não bateu. Mas mesmo não finalizando, o Peixinho chutou muito e o Tigre acabou no hospital de Rio Claro. O Wandão pegou um lutador chamado Lobo e deu-lhe umas quatro pancadas que o fez fugir do ring. O Wandão pulou atrás e virou um tumulto. O juiz então interrompeu a luta.
Lutei em São José do Rio Preto pelo time do Nahum Rabay, que tinha poucos alunos e eu fui para representar o Jiu Jitsu. Além dessa, o George Gracie organizou uma vez em Catanduva um desafio chamado de FORÇA X TÉCNICA e os estivadores da cidade foram convidados a lutar. Eu lutei contra um carregador de sacos de uns 100 kg que chamava-se Caio. Eu vendo o tamanho dele, vi que teria que resolver logo e apliquei uma chave de pé fazendo-o desistir.

FQ: O Sr. mantém academia ainda?
MC: Fechei a academia em 2006 e hoje dou aulas só para meu neto que tem 14 anos. Tive dois filhos que praticaram Jiu Jitsu e um deles, o Antonio Carlos, deu aulas em outra academia em Araraquara. Ele só parou porque sofreu um acidente de carro e teve algumas seqüelas.

FQ: E os campeonatos da época?
MC: Havia poucos campeonatos e somente em São Paulo. Eu participava com meus alunos e no interior, além da minha equipe, posso citar o Borges de Campinas, o Gonçalo de Limeira, o Romeu Bertho de São Carlos e Nahum Rabay de Catanduva que eram outras escolas que se destacavam.

FQ: Que lutador o Sr. poderia citar como o maior de todos os tempos?
MC: Pedro Hemetério foi um grande lutador. E claro todos os irmãos Gracie que foram fora de série. Na década de 60 eu estive fazendo um curso de mecânica no Rio de Janeiro e pude treinar na academia do Carlson Gracie e pude constatar que ele foi um fenômeno.

FQ: Como o Sr. analisa o Jiu Jitsu atual?
MC: Houve uma grande expansão depois que as federações foram fundadas, porém essas mesmas federações criaram um grande problema também que é a falta de critério para graduações de faixas. Hoje, qualquer um paga as taxas e através de politicagem consegue uma graduação de faixa preta.

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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Odair Borges - A arte suave completa

Tags:, - Guga Noblat às 00:05:52

Foto Arquivo Pessoal - Sensei Odair Borges

Por Fabio Quio Takao, pesquisador e colaborador do blog:

(Agradecimentos a colaboração do Sensei Stanlei Virgílio)
 
O significado literal dos ideogramas Jiu Jitsu, ou Ju Jitsu como prefere pronunciar o Sensei Odair Borges, é arte suave. Na prática, a designação desse estilo de luta ficou conhecida como um conjunto de técnicas onde uma pessoa fraca e sem armas poderia se defender do ataque de um agressor mais forte.

Ao contrário do que muitos pensam, quando os vários estilos foram concebidos no Japão e mesmo o Jiu Jitsu Gracie no Brasil, não haviam restrições à golpes traumáticos e outras técnicas que são proibidas nas práticas esportivas. Qualquer técnica que se mostrasse eficiente era utilizada. Como as técnicas de projeção e de solo se mostraram mais eficazes e de certa forma conseguiam diminuir a desvantagem de força, o Jiu Jitsu ficou estigmatizado por ser uma luta exclusivamente agarrada e no solo.
 
Mesmo o Jiu Jitsu Gracie possui técnicas de defesa pessoal com alguns golpes traumatizantes e apesar de não serem o foco principal, Carlos, Hélio, Carlson e outros membros da primeira e segunda geração da família treinavam quedas para levar a luta ao solo e eventuais socos e chutes.
 
Odair Borges compactua com essa visão global do Jiu Jitsu de defesa pessoal e procura praticar a arte em toda sua extensão. Mesmo se a abordagem for uma competição esportiva, Sensei Odair prefere as regras utilizadas pela Ju Jitsu International Federation, entidade onde o lutador obrigatoriamente precisa desferir socos e chutes antes de partir para a queda e luta no solo.
 
Para entender essa visão, vamos conhecer a formação desse mestre que hoje é um dos mais completos conhecedores do Judo e Jiu Jitsu.
 
Em 19 de Novembro de 1943, José Borges conseguiu um barracão de madeira no Clube Campineiro de Regatas e Natação de Campinas, onde promovia e orientava treinos de Jiu Jitsu. As aulas contavam com alguns entusiastas de Luta Livre,  Jiu Jitsu e muitos alunos da colônia japonesa passaram a freqüentar os treinos. José de Almeida tomou primeiro contato com o Jiu Jitsu Gracie através de um rapaz que o procurou e que já havia praticado Jiu Jitsu no Rio de Janeiro. Nessa época os treinos eram mais uma troca de informações vindas de diversas modalidades, mas ainda não havia uma base sólida por falta de um mestre que orientasse os treinamentos.
 
Isso mudaria algum tempo depois coma chegada em Campinas de George Gracie na década de 40. George, após uma temporada em São Paulo, começou uma verdadeira cruzada pelo interior paulista difundindo o Jiu Jitsu Gracie. José Borges treinou durante 1948 e 1949 com George Gracie, pois esse era o tempo máximo que o “Gato Ruivo” permanecia numa cidade. Mas a semente do Jiu Jitsu já estava plantada.

Em 1949, José Almeida passa seu Dojô para o Clube Atlético Campinas e conhece o Sensei Shigueishi Yoshima, faixa preta 3º dan de Judô, e logo começa a treinar com o mesmo. No ano de 1951, José Almeida Borges torna-se um dos pouquíssimos brasileiros a terem um certificado de faixa preta de Judô vindo direto da Kodokan do Japão. Nessa época, o “Mulata” participa de vários eventos de “Luta Livre Americana” como era conhecido o Vale Tudo.
 
Buscando sempre o aperfeiçoamento da arte, em 1957 José de Almeida Borges procura o prof. Pedro Hemetério, grande mestre que foi um dos primeiros Faixas Preta de Carlos e Hélio Gracie. Com muito sacrifício, Borges viaja de Campinas para São Paulo alguns dias da semana e treina no regime de aulas particulares durante seis anos. Em 1964, o Prof. José de Almeida Borges é promovido por Pedro Hemetério à faixa preta de Jiu Jitsu.
 
Em 1970, José de Almeida inaugura um Dojô com sede própria em Campinas-SP. O Dojo da Academia Borges passa a ser um dos únicos no Brasil que ensina o Jiu Jitsu em sua forma mais ampla, graças aos ensinamentos passados pelos nomes mais consagrados do Jiu Jitsu e do Judo do Brasil. Foi nesse ambiente de interação entre os estilos, buscando acima de tudo a eficácia e a perfeição da técnica, que o filho de Jose Almeida Borges, Odair Borges começa a trilhar sua brilhante carreira.
 
De forma precoce, em 1995 o Sensei José de Almeida Borges falece e deixa a Academia Borges sob a responsabilidade do filho Odair Borges, que já possuía um currículo invejável.

O Brasil tem tradição em produzir fenômenos esportivos e na mesma proporção tem a tradição em não dar incentivo aos atletas e em muitos casos não prestar o devido reconhecimento aos desbravadores. Odair Borges é um desses casos.

A formação de Odair Borges é sedimentada através de seu pai, que assim como ele, uniu o Judo e o Jiu Jitsu tornando-o um dos mais completos atletas e professores do Brasil.
 
Odair Borges nasceu em Campinas em 1947 e desde os três anos de idade já teve os primeiros contatos com o Judô. Aos 17 anos, já faixa preta de Judô e segue o exemplo do pai e passa a treinar Jiu Jitsu com Pedro Hemetério. Em 1967 recebe a faixa preta de Jiu Jitsu.
 
Aos 21 anos, já era tri-campeão paulista de Judô conseguindo vitórias com importância maior que muitos campeonatos. Odair foi provavelmente o único “ocidental” que derrotou os lendários judokas da colônica japonesa do Brasil: Massayoshi Kawakami e Shiozawa. Dentro do Judô esportivo como atleta, o currículo de Odair é dos mais impressionantes. Foi integrante competidor da seleção brasileira de Judô de 1965 até 1975 e campeão brasileiro, sul americano e Ibero americano de Judô.
 
Odair foi o primeiro brasileiro a estagiar no Japão durante um ano na famosa Universidade Waseda em 1970, grande celeiro do Judô japonês. Nesse período também fez um curso de aperfeiçoamento no Kodokan, templo maior do Judô. Para concretizar essa viagem ao Japão, Odair contou com o patrocínio da Universidade Gama Filho e hospedou-se inicialmente com o pai de Shiaki Ishii, o Sr. Yukiti Ishii.

Ainda no Japão, teve oportunidade de treinar com os grandes mestres japoneses e também com os mais respeitados competidores da época como Anton Geesink, holandês que foi o primeiro ocidental a vencer um japonês no campeonato mundial de 1963. Treinou também com o discípulo de Geesink e também campeão mundial Willen Huska.

Com formação acadêmica invejável, Odair é formado em Educação Física com Mestrado pela Universidade de São Paulo. Sua tese de mestrado foi avaliada (e aprovada) no Japão, pois, na época, não havia uma banca examinadora brasileira preparada para analisar um trabalho específico de Judô.

Odair foi um dos primeiros a tentar o reconhecimento do Jiu Jitsu brasileiro por entidades olímpicas. Em 1997, após uma matéria na Gracie Magazine falando sobre a origem do Jiu Jitsu e sobre a possibilidade do mesmo vir ha ser esporte olímpico, Odair Borges redigiu um documento e enviou a revista ratificando e esclarecendo alguns pontos que divergia.
 
Como sendo um dos poucos que conheceu de perto o Kodokan e por outro lado treinou com a nata da família Gracie, Odair afirma que o Jiu Jitsu Gracie não foi criado exatamente  como é descrito hoje pela família e que o Jiu Jitsu Brasileiro deveria tentar o caminho olímpico por outras entidades que tem reconhecimento olímpico.
 
A mais de 15 anos atrás, Odair tentou junto com Fernando Yamasaki direcionar o Jiu Jitsu brasileiro para a Ju Jitsu International Federation, entidade que, segundo ele, teria mais chances de incluir o esporte nos jogos olímpicos. A questão é que as regras adotadas pela JJIF exigem que a luta seja desenvolvida com socos, chutes, quedas e finalizações no solo.

Em 1993, aconteceu na Dinamarca a primeira Copa de Ju Jitsu por essa entidade, com Brasil participando com a presença de ninguém menos do que Fabio Gurgel, Fernando Yamasaki  e Sylvio Behring, que devido as regras, não conseguiram resultados expressivos.
 
No ano seguinte em25 de Novembro de 1994, aconteceu em Bolonha na Itália, também pela JJIF, o primeiro Mundial de Ju Jitsu com a participação de Wallid Ismail, que também não se adaptou as regras. Nesse mesmo campeonato, o aluno de Odair Borges, Marcelo Figueiredo conseguiu o título mundial. Em 1997 conseguiu o título de Ju Jitsu no World Games na Finlândia.
 
Atualmente, Odair Borges concentra seu foco na Academia Borges de Judo e Jiu Jitsu, localizada em Campinas, com sede própria desde 1970. Em seu Dojô, Sensei Odair Borges leciona para crianças e adultos e mantém a tradição, disciplina e filosofia dignas de um grande mestre.
 
Segue sua entrevista:

1-FABIO QUIO: Como e quando seu pai, José de Almeida Borges, teve o primeiro contato com as artes marciais?
ODAIR BORGES: Meu pai adorava qualquer tipo de luta ouesporte. Ele era nadador do Clube Campineiro de Regatas em Campinas-SP. Nessa região, o que era conhecido em termos de artes marciais era a Luta Livre. Essa paixão fez com que ele arrumasse um barracão no Clube Campineiro e começou a praticar Luta Livre e isso atraiu pessoas interessadas e de outras modalidades. Isso foi em 1943 e ele tinha 22 anos. Ele comentava que na época chegou a conhecer um lutador de Jiu Jitsu do Rio de Janeiro, que foi o primeiro contato dele com a Arte. Outra forte influência era da colônia japonesa local, que tinha alguns lutadores de Judô e dentre eles o Sensei Yoshima, que é considerado o introdutor do Judô na região.
Meu pai logo entrou em contato com ele, mas como a colônia era muito fechada, era necessário o Sensei pedir permissão para outros Senseis de São Paulo como o Sensei Fukaya e outros para poder ensinar o Judô para estrangeiros.
O Sensei Yoshina conseguiu a autorização de ensinar e meu pai arrumou um amigo que tinha carro para buscar o Sensei Yoshima na fazenda onde morava para que eles pudessem ter aulas. Era uma distância danada!

2-FQ: Como seu pai teve o primeiro contato com o Jiu Jitsu?
OB: É importante frisar, que quando meu pai começou a aprender Judô com o Sensei Yoshima, a denominação Judô estava começando a ser usada, pois muitos chamavam de Jiu Jitsu e o Judô de “novo Jiu Jitsu”.
Um dia, meu pai soube que o George Gracie estava em Piracicaba e foi procurá-lo. Chegando lá, ele não pôde assistir a uma aula, pois eram aulas particulares e o aluno não permitiu que ele visse. Além disso, meu pai não tinha condições de pagar a mensalidade e por isso propôs limpar a academia como forma de pagamento e assim começou a ter aulas. Algum tempo depois, o George viu o empenho do meu pai em vir de Campinas para ter as aulas, acabou se afeiçoando muito a ele.
Algum tempo depois, o George mudou para Valinhos, que já era mais próximo de Campinas, facilitando a vida do meu pai. Porém, como era de costume do George, ele logo se mudou e meu pai foi em busca de um novo professor de Jiu Jitsu.
Ele foi parar em São Paulo na academia do Gastão Gracie, na Praça da Biblioteca no centro de São Paulo. Nessa época, o Pedro Hemetério ainda não tinha academia e dava aulas na academia do Gastão. Porém, logo depois o Pedro Hemetério montou sua academia na Av. Nove de Julho e meu pai começou a ter aulas lá. Ele ia de trem de Campinas a São Paulo uma vez por semana para ter aulas durante sete anos. Após se formar com Pedro Hemetério, meu pai montou uma academia aqui em Campinas e passou a dar aulas de Judô e Jiu Jitsu.

3-FQ: Quando o Sr. começou a treinar?
OB: Eu tenho uma foto de 1950, onde eu tenho três anos e já estou treinando com meu pai e o Sensei Yoshima. Durante toda minha infância e adolescência eu treinei Judô. Quando o Shiaki Ishii chegou ao Brasil, meu pai foi procurar ele e me colocou para fazer aulas particulares com ele. Eu fui o primeiro aluno do Shiaki Ishii no Brasil. Ele morava e dava aulas na Rua Oscar Freire em São Paulo, na academia do Sensei Kurachi.  Mais tarde, comecei também a treinar Jiu Jitsu com o mestre Pedro Hemetério, fazendo a mesma viagem de trem semanal que meu pai fizera. Eu já era o mais novo integrante da seleção brasileira de Judô com 18 anos e, portanto já tinha uma excelente base. O que eu desenvolvi bastante como o Mestre Pedro Hemetério foi todo o programa de defesa pessoal dos Gracie e a luta de chão e como fazer a guarda que são coisas que no Judô eram pouco usadas. O que eu vim a descobrir depois com quando estava no Japão, é que toda aquela luta de solo já era do Judô tradicional, que era oriundo do Jiu Jitsu japonês, mas que não era mais praticado no Judô esportivo.

4-FQ: Como foi sua primeira viagem para o Japão?
OB: Depois que eu ganhei uma competição, a Universidade Gama Filho do Rio de Janeiro (tradicional entidade que apóia o Judô e Jiu Jitsu) me deu uma bolsa para ir treinar no Japão.  Eu tinha 22 anos e nessa época, em 1970, ninguém conhecia o treino japonês. Eu fiquei um mês na casa do pai do Shiaki Ishii, que era meu técnico na época. Depois fiquei no próprio Kodokan (templo máximo do Judô mundial) em Tóquio e fiz cursos de Judô lá. Treinava diariamente na Universidade Waseda e foi nesse ano que fiquei no Japão que pude perceber que o Judô possuía técnicas de chão (Ne Waza), ao contrário do que pensávamos aqui no Brasil. Acontece que somente lá no Japão esse Judô  ainda era treinado em alguns lugares.
A Universidade de Waseda também foi muito importante para minha formação, pois era muito conceituada na época. Inclusive o irmão do Shiaki Ishii era o capitão da seleção de Judô de Waseda. O Treinador de lá era o Osawa Takagaki Yoshimatsu, que inclusive veio a Campinas numa delegação para disseminar o Judô. O Sensei Osawa foi um dos poucos 10º Dan da Kodokan.

5- FQ: Como foi a adaptação?
OB: Eu estudei sete meses de Japonês antes de ir, pois eu já tinha esse objetivo. Mas mesmo assim é muito difícil, principalmente ler e escrever. Mas eu consegui me virar, pois acaba sendo obrigado. Em relação aos treinos da Universidade, eram bem rígidos e existia uma diferença muito grande, com um nível técnico muito superior. Eu achava que como sabia o Jiu Jitsu brasileiro, iria chegar lá e pegar todo mundo. Mas não peguei ninguém! Havia alguns mestres na Kodokan que gostavam de chão e perceberam que eu também gostava. Eu me lembro de um Sensei já com seus mais de 50 anos que me chamou para treinar Ne Waza e me pegou na guarda e me manteve em cima como se fosse dar um Tomoe Nagê, mas não me derrubou. Ele falava pra eu sair dali e eu não conseguia!

6-FQ: O Sr. tem algumas opiniões que divergem sobre a criação e desenvolvimento do Jiu Jitsu Gracie . Fala um pouco sobre isso.
OB: Nesse período que passei na Kodokan, pude perceber que todas as técnicas que a família Gracie alegava ter inventado, na verdade já existiam no Judô original. O próprio Jigoro Kano teve dificuldades em implementar o novo método, pois haviam alguns mestres de diversos estilos de Jiu Jitsu que já eram especialistas em Ne Waza. O que eu acho que aconteceu foi que realmente o Carlos e o Hélio Gracie, devido a sua fragilidade física, perceberam que a luta de chão era mais eficiente para eles. Com isso, realmente eles DESENVOLVERAM melhor a técnica de chão, enquanto que no resto do mundo, o Judô foi tomando o caminho inverso em direção ao esporte. Inclusive, no Judô os golpes usados no Jiu Jitsu brasileiro já tinham nome e a família fez questão de usar outros nomes para tentar desvincular o Gracie Jiu Jitsu do Judô. Na luta de Kimura contra o Hélio Gracie, a família divulga como se o Kimura fosse o campeão japonês de Jiu Jitsu, mas na verdade ele era campeão japonês de Judô.
Tudo isso eu posso dizer por que conheci a Kodokan e conheci a família Gracie. Quando eu tinha 19 anos, o Pedro Hemetério me levou para o Rio de Janeiro e dormimos na casa do Hélio. Ele nos recebeu muito bem e foi muito simpático. Conheci também o Carlos Gracie na praia. Foi uma situação engraçada. Estávamos eu e o Pedro e de repente o Carlos Gracie veio a nossa procura e disse que tinha um aluno do Carlson, que não me recordo o nome, que dizia que podia finalizar o Pedro. O Pedro respondeu: “Então vamos lá ver!”.  Chegando à academia, já havia até uma aposta entre o Carlos e o Carlson. Um pagava em dinheiro e outra dava um revólver! (risos). A luta foi morna e o Pedro Hemetério colocou o aluno do Carlson dentro da guarda e ficou nisso durante uma meia hora, mas acabaram dando a vitória pro Hemetério.
No outro dia, voltamos na academia do Carlson, pois o Hemetério queria que eu treinasse com o próprio Carlson. O Carlson ficou sabendo que eu era Judoka e quando fomos lutar, ele já entrou direto nas minhas pernas e me levou pro chão. Rolamos um pouco e logo ele me pegou. Ele me elogiou e logo depois chamou o irmão dele, o Rolls, que na época era da mesma idade que eu, ou um pouco mais novo. Rolamos algum tempo, mas ninguém conseguiu finalizar.

7-FQ: Em relação aos novos caminhos que o Jiu Jitsu deve tomar, o Sr. também tem algumas opiniões diferentes. Qual a direção deveria ser tomada?
OB: O Marcelo Figueiredo, meu aluno, foi campeão do 1º Campeonato Mundial de Ju Jitsu na regra Internacional. Essa regra exige que o atleta use socos e chutes. Depois de agarrar, só vale quedas e depois as finalizações. No Jiu Jitsu original isso era treinado. Apesar de ser uma luta agarrada, você tem que saber como bater. O próprio Carlson Gracie treinava socos e chutes. O Valdemar Santana também. O Pedro Hemetério ensinava isso. Não era preciso ser um expert, mas tinha que pelo menos saber dar um soco, um chute lateral, etc. Fora é claro, a parte de quedas e projeções, que não se pratica no Jiu Jitsu brasileiro.
Eu acho que esse era o caminho para o Jiu Jitsu. Por não ter uma equipe unida, não demos mais prosseguimento em participar desses campeonatos. Apesar dessa preferência, o Marcelo e meus filhos Rafael e Felipe lutaram também em vários campeonatos estaduais e mundiais da CBJJ e inclusive foram campeões algumas vezes. Assim como também eu sempre incentivei eles a participarem de campeonatos de Judô.

8-FQ: O Sr. mantém equipes competindo ainda hoje?
OB: Atualmente estou sem atletas competindo porque há alguns anos tive um problema em um campeonato com o Jorge “Macaco”. Acho que os campeonatos de Jiu Jitsu não são bem organizados e alguns professores, por ter maior influência, querem ganhar no grito. Achei uma falta de respeito muito grande dele e fiquei desmotivado há participar dos campeonatos.

9-FQ: E quanto ao panorama atual do Judô?
OB: Acredito que deveriam acontecer algumas mudanças para que o Judô se propagasse mais, pois essa era a vontade de Jigoro Kano. Talvez mudar algumas regras para ficar mais atrativo. Eu acho que a técnica essencial veio se perdendo. Com o advento do esporte, o Judô perdeu um pouco seu lado marcial. Eu não aprecio esse Judô que praticam agora. Os professores ensinam as crianças somente a lutarem e não o verdadeiro Judô. Outra coisa é a nomenclatura dos golpes que está sendo usada, que é horrível. Outro dia, vi uma entrevista com o Flávio Canto se referindo a “catada”, “double leg”, “single leg”,etc. Um Judoka não deveria usar esses termos, pois são golpes que possuem nomes tradicionais. Um atleta que posso destacar e que tem me impressionado com seu nível de Judô é o Tiago Camilo. Gostei muito das lutas que vi dele.

10-FQ: O que tem achado do nível dos atletas de Jiu Jitsu?
OB: As lutas que tenho visto na TV tem se mostrado pouco empolgantes. Às vezes o lutador não consegue passar a guarda e fica naquele jogo travado. Héio Gracie e Pedro Hemetério eram contra pontuação, pois o objetivo era finalizar. Agora tem até mesmo “vantagens”. Eu vejo que a maioria dos atletas quer mesmo é fazer Vale Tudo. Quando estive no Rio de Janeiro há alguns anos atrás, levei alguns alunos pra treinar na academia do Royler Gracie e gostei muito da técnica dele.

11-FQ: O Sr. tem acompanhado Vale Tudo?
OB: Vi recentemente a luta do Minotauro contra o Randy Couture. Tenho visto algumas lutas do Lyoto Machida. As lutas de Vale Tudo agora quase só tem pancadas. Os atletas precisam ter muita resistência para aguentar tanta pancada.

12-FQ: Algum novo atleta se destacando?
OB: Eu tenho aluno de 14 anos chamado Paulo, que veio através de uma ONG que faz um trabalho social com crianças carente. Eu faço um trabalho de base com ele. Ele tem se mostrado promissor, tanto no Judô como no Jiu Jitsu. Além disso, meu filho disputou o mundial de Luta Greco-Romana e ele tem ensinado o Paulo até mesmo essa modalidade. Eu não gosto de pressionar os alunos infantis para fazer competições e deixo-os amadurecerem naturalmente. Muitos de meus alunos não tiveram títulos nas categorias infantis e juvenis, mas foram campeões na categoria adulta.

13-FQ: O Sr. continua com as aulas?
OB: Sim, temos dias de treino de Judô e dias de treino de Jiu Jitsu e também mantenho aulas particulares. Ensino defesa pessoal começando com o judô para derrubar, depois a parte de solo para imobilizar e finalizar. É uma abordagem completa. Eu tenho um aluno particular que é de Capivari. Seu nome é Luís e ele vem uma vez por semana desde a época do meu pai. Ganhou a faixa preta depois de 16 anos e continua vindo treinar.
Quem for da região de Campinas-SP e quiser conhecer nosso trabalho será muito bem-vindo na Academia Borges.

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Octávio de Almeida - Uma vida dedicada ao Jiu Jitsu

Tags:, - Guga Noblat às 11:09:25

Por Fabio Quio Takao, pesquisador e colaborador do blog:

O Jiu Jitsu Gracie foi desenvolvido e sedimentado pela família Gracie desde a década de 40 no Rio de Janeiro. Devido a diversos fatores, até os anos 60, essa arte ficou restrita basicamente ao Rio de Janeiro apenas a família e alunos que podiam pagar pelas mensalidades relativamente caras. Além disso, diversas outras artes marciais começaram a se expandir no Brasil, especialmente o Judô na década de 60/70 e o Karatê na década de 80.

Apesar de todos esses obstáculos, o Jiu Jitsu Gracie teve em São Paulo um importante núcleo iniciado por George Gracie e seus alunos. Um dos mais importantes foi Octávio de Almeida, pai do atual presidente da Federação Paulista de Jiu Jitsu, Octávio de Almeida Junior. A história desse mestre teve início na capital paulista onde nasceu em 02 de Novembro de 1917. São Paulo foi uma das cidades que atraiu um grande número de imigrantes japoneses e dentre eles diversos praticantes do Judô. Um dos mais importantes pioneiros do Judô foi Yassuitchi Ono e seu irmão mais novo Naotchi Ono, ambos inclusive rivais da família Gracie. Octávio de Almeida começou praticando Judô com Sensei Yassuitchi Ono até graduar- se faixa preta. Algum tempo depois, Octávio conheceu o George Gracie que veio divulgar o Jiu Jitsu em São Paulo e começa a treinar exatamente no dia 06 de Janeiro de 1950.

 É importante frisar que até a década de 50, o Judô praticado dava também muita ênfase ao NeWaza(técnicas de solo) e portanto, era muito parecido com o Jiu Jitsu praticado pela família Gracie. Até mesmo a nomeclatura usada era a mesma e os irmãos Ono ainda usavam o termo Jiu Jitsu. Muitos países tambem usavam a designação “Jiu Jitsu de Kano”  e a separação definitiva entre as duas modalidades demorou a ocorrer.

rapidamente a ser o aluno mais graduado de George Gracie. Por volta de 1951, Octávio de Almeida já era um dos instrutores de confiança de George Gracie e a Academia localizada na Rua Maria Marcolina nº 53 no centro de São Paulo já atraía muitos alunos buscando aprender Defesa Pessoal e o Jiu Jitsu Gracie.

Foi justamente nessa época que George Gracie resolveu deixar São Paulo para dar continuidade as suas costumeiras andanças. O temperamento imprevisível de George espantava até mesmo seus amigos mais próximos e o modo como partiu deixa isso claro. A princípio, George viajou sem avisar e após alguns dias liga comunicando que não iria mais retornar. Os alunos ficam perplexos e pedem a Octávio de Almeida que assuma os alunos.

George aprova a solicitação e a partir disso Octávio dá início a sua brilhante carreira de professor de Jiu Jitsu. Durante algum tempo Otavio ainda mantinha o nome: ”Academia de Jiu Jitsu e Defesa Pessoal George Gracie do Prof. Octávio de Almeida” com o aval de George, que chegou a voltar apenas de passagem dois anos após sua partida.

Após 10 anos na Rua Maria Marcolina, decide mudar sua academia para Rua Augusta nº 1928 já com o nome “Academia Octávio de Almeida de Jiu Jitsu e Defesa Pessoal”. Após algum tempo muda-se novamente para Rua da Consolação nº 2416 onde permanece 14 anos e depois para Rua Lisboa onde permaneceu quase 30 anos.

A importância de Octávio de Almeida foi crucial para o desenvolvimento do Jiu Jitsu paulista, pois nas décadas de 50 e 60 a cidade só contava com a presença dos professores Gastão Gracie e Pedro Hemetério que adotavam o sistema de aulas individuais característico da Academia Gracie do Rio de Janeiro.

A Academia de Octávio de Almeida tinha várias características que a tornavam única. A começar pela formação de Octávio que contou com mestres lendários tanto no Judô como no Jiu Jitsu. Além disso, a academia de Octávio de Almeida era um local onde qualquer cidadão conseguia uma interação mais rápida e fácil. As academias de Gastão Gracie e Pedro Hemetério tinham um custo relativamente alto e as academias de Judô atraíam principalmente os japoneses pela identificação com o idioma e costumes.

Além de quebrar esses paradigmas, a Academia de Octávio de Almeida foi pioneira em formar turmas femininas e infantis de Jiu Jitsu. Dotado de um carisma ímpar, Octávio aos poucos foi se especializando nas turmas infantis e seus campeonatos internos, que aconteciam inicialmente na própria academia, passaram a ser no auditório do Liceu Eduardo Prado. O primeiro Campeonato Paulista Infantil aconteceu em 1969 e foi transmitido em um programa do canal 7 com patrocínio do Pão Pulmann e após o sucesso inicial, acontecia anualmente.

Os “Festivais”, como eram conhecidos os campeonatos infantis, atraíam uma quantidade de crianças que nem mesmo a Academia Gracie no Rio de Janeiro conseguira na época. Outros destaques eram os enormes e ornamentados troféus que Octávio de Almeida mandava confeccionar para incentivar os atletas.

A preocupação pedagógica era prioridade e Octávio possuía uma incrível organização com arquivos detalhados sobre cada aluno. As fichas continham todos os dados dos alunos e também os resultados nos campeonatos, datas de graduação e informações sobre o desempenho escolar, que era condição exigida para as trocas de faixas. As aulas para as crianças, que no primeiro momento causou certa desconfiança por parte de alguns, alcançou tamanha popularidade entre as famílias paulistanas que em determinados períodos a Academia Octávio de Almeida contava com 350 crianças matriculadas.

Somado ao trabalho com crianças, Mestre Octávio de Almeida formou excelentes atletas e deixou um legado que é perpetuado através de seus alunos, hoje importantes professores que atuam na capital paulista. Dentre eles podemos citar o Mestre Oswaldo Carnivalle, que em entrevistas deixa transparecer a admiração que nutre por Octávio de Almeida.

A tradição do Jiu Jitsu de Octávio de Almeida também pode ser encontrada na academia de seu filho Octávio de Almeida Junior que cresceu na academia do pai e mantém sua equipe ativa. Além disso, Octávio de Almeida Junior tem feito um incansável trabalho como presidente da Federação Paulista de Jiu Jitsu. Na atual sede da Federação Paulista de Jiu Jitsu é possível ver diversas fotos onde Octávio de Almeida Junior homenageia seu pai. A atual equipe de Octávio de Almeida Junior também foi responsável pela formação de diversos atletas e professores que conduziram o Jiu Jitsu paulista ao alto nível atual.

Outro importante aluno de Octávio de Almeida foi Moisés Muradi. Moisés além de sua carreira como atleta e professor, teve como destaque sua atuação na presidência da FESP, federação que também atua em São Paulo. Atualmente Moisés é presidente da CBJJE e também se dedica a promover campeonatos e mantem sua equipe Lótus Jiu Jitsu.

Seria impossível citar aqui todos os alunos e professores que Octávio de Almeida formou. Mais difícil ainda seria listar as pessoas que Octávio orientou e influi positivamente seja na parte esportiva ou no aspecto comportamental. O que se torna evidente é o fascínio que Octávio de Almeida exercia. Em todas as entrevistas dos professores Carnivalle, Moisés Muradi, Romeu Bertho, Candoca, Flavio Behring e outros, os comentários sobre Otávio são sempre relativos à sua retidão de caráter e importância na sua atuação para manter o Jiu Jitsu paulista vivo, mesmo estando longe da Academia Gracie.

Outro feito de Octávio de Almeida que merece destaque foi a criação em 1965 de um Departamento de Jiu Jitsu dentro da Federação Paulista de Pugilismo que era responsável por todos os esportes de combate da época. O Departamento foi um degrau importante para a oficialização do Jiu Jitsu e dentre outros serviços, emitia diplomas, formalizava regras e designava juízes para lutas. Além dos torneios internos da Academia Octávio de Almeida, em 1976 aconteceu o primeiro torneio paulista de Jiu Jitsu. O Pacaembu que já era palco para diversos eventos de Judô, Luta Livre e Vale Tudo acolheu o primeiro campeonato de Jiu Jitsu com a participação das equipes das Academias de Octávio de Almeida, Oswaldo Carnivalle e Pedro Hemetério.

Octávio de Almeida teve como foco principal sua atuação como professor de Jiu Jitsu e educador de crianças. O que poucos sabem é que ele também enfrentou desafios e o maior deles foi contra Waldemar Santana. Waldemar já havia ganhado de Hélio Gracie há dois anos e desde então passou a viajar pelo Brasil lutando com os maiores nomes do Vale Tudo do Brasil. Ao passar por São Paulo, a princípio Waldemar quis enfrentar Pedro Hemetério, mas a luta acabou não acontecendo. Foi então que Octávio de Almeida aceitou o desafio.

A luta aconteceu em 05 de Junho de 1957 no Ginásio do Pacaembu em São Paulo e foi dentro das regras do Jiu Jitsu de kimono. O resultado da luta foi a vitória de Waldemar devido a desistência de Octávio de Almeida aos quatro minutos do primeiro round. Segundo as declarações dadas por Octávio de Almeida à diversos jornais da época, Waldemar usou vários golpes proibidos como dedo nos olhos e joelhadas, mesmo sob o protesto de Octávio. Como o juiz não intercedeu, Octávio optou por desistir da luta. Apesar do pedido de Octávio para uma revanche, Valdemar impôs uma bolsa altíssima que inviabilizou a Em 17 de Janeiro de 1983, aos 64 anos, Octávio de Almeida sofre um enfarto e falece precocemente deixando uma legião de alunos e admiradores. Sua liderança jamais conseguiria ser substituída, mas com certeza o caminho que o Jiu Jitsu paulista iria galgar, graças a sua obra, com certeza seria hoje motivo de orgulho para o Mestre.

Apesar da atuação de Octávio de Almeida deixar uma lacuna insubstituível, seu filho Octávio de Almeida Junior e outros professores como Oswaldo Carnivalle,Moisés Muradi e Roberto Lage fizeram um trabalho importante até a chegada de Flavio Behring no começo dos anos 90 para dar um novo impulso ao Jiu Jitsu de São Paulo.

A partir da década de 90, a regularidade de campeonatos aumenta dando amplitude e reconhecimento ao pioneiro trabalho iniciado por essa grande liderança do Jiu Jitsu paulista que foi Octávio de Almeida.

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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O primeiro promotor de eventos de Vale Tudo do Brasil (relembrar é viver)

Tags:, , - Guga Noblat às 19:03:45

Luta promovida por Hugo Lira em 06 de Setembro de 1973

Luta promovida por Hugo Lira em 06 de Setembro de 1973

Por Dinaldson “Dolinha” e Fabio Quio Takao, pesquisador e colaborador do blog:

O universo das lutas sempre teve personagens importantes que atuavam fora dos ringues: os promotores. Eram eles que descobriam os lutadores, casavam as lutas, promoviam o evento e pagavam as bolsas dos atletas, apesar de muitos não cumprirem essa última fase do processo.
De forma surpreendente, o primeiro promotor de eventos de Vale Tudo do Brasil surgiu no nordeste, região historicamente pobre e com poucos recursos. Seu nome: Hugo Lira.
Muitos podem afirmar que os irmãos Carlos e Hélio Gracie já promoviam desafios de Vale Tudo desde a década de 30, porém o foco deles sempre foi provar a superioridade do Jiu Jitsu e dedicar-se à perpetuação da arte através da Academia Gracie.
 Hugo Lira especializou-se em promover os eventos dando chances para todos os lutadores e estilos, mesmo que esses fossem apenas homens fortes e não tivessem técnica refinada. O importante era a coragem para subir no ringue e oferecer um bom espetáculo ao público, diretrizes que norteiam os maiores eventos de M.M.A. até hoje.
 Foi nesse caldeirão formado por diversos estilos de lutas e homens batalhadores onde aconteceram as maiores lutas que o mundo já havia assistido até então. Batalhas que envolveram nomes como Ivan Gomes, Euclides Pereira, Waldemar Santana e Carlson Gracie.
Enquanto no Rio de Janeiro, os irmãos Carlos e Hélio promoviam os desafios envolvendo exclusivamente seus alunos, Hugo Lira atuava com todos os lutadores ou curiosos que se dispunham a lutar a “Luta Livre Americana”, como era conhecido o Vale-Tudo.

Dono de uma visão empreendedora à frente de seu tempo, “seu Hugo”, reconheceu naquelas lutas um potencial atrativo que sempre fascinou os homens. Para que os eventos se tornassem viáveis comercialmente, bastaram fazer alguns ajustes como tempo estipulado, golpes proibidos, o marketing dos lutadores e o espetáculo estava montado.
Para se entender a importância de Hugo Lira para o Vale Tudo, basta lembrar que ele foi o pioneiro numa profissão que hoje conta com os irmãos Fertitta (UFC), Nobuyuki Sakakibara (extinto Pride), Tom Atencio (Affliction), Wallid Ismail (Jungle Fight), Oscar Maroni (Show Fight) dentre outros.
 Para os fãs de MMA que tem menos de 25 anos, talvez a tarefa de promover lutas pareça simples, mas é importante lembrar que estamos falando das décadas de 60 e 70, época onde não havia internet e mesmo um simples telefone era um luxo que a grande maioria dos lutadores não tinha. Além das dificuldades de comunicação, os lutadores não eram encarados como profissionais e conseqüentemente não recebiam bolsas que permitissem um sustento digno.
 Foi nesse cenário desestimulante que Hugo Lira, habituado a vencer as dificuldades, se firmou como importante divulgador do Vale Tudo, esporte que viria a se transformar num fenômeno mundial 20 anos depois. Ele mesmo praticante de várias modalidades de lutas, tornou-se amigo dos mais importantes lutadores como Ivan Gomes, Euclides Pereira, Balbino, Waldemar Santana, etc.
 
Atualmente “seu Hugo” acompanha os torneios como expectador e é com certeza um “museu vivo das lutas” como se autodenomina. Dono de um acervo de reportagens, panfletos e fotos cuidadosamente arquivados, infelizmente “seu Hugo” não conta com o reconhecimento nacional e mesmo sem apoio, tem a intenção de publicar um livro contando como foi a gênese do Vale Tudo no Nordeste.
 Graças ao esforço do pesquisador e amigo Dinaldson “Dolinha”, Hugo Lira hoje tem um reconhecimento maior e aos poucos é feito justiça com esse verdadeiro herói que ajudou a promover o que hoje chamamos de MMA.
Onde e quando o Sr. nasceu?
Hugo Lira: Nasci em João Pessoa-PB em 29 de abril de 1929.

Onde e quando o Sr. teve o primeiro contato com o Vale-Tudo?
HL: Em 1956, na inauguração do Sport Clube Cabo Branco em  João Pessoa. Foi uma luta entre Waldemar Santana e Bernardão. Foi em agosto de 1958 que comecei promovendo as primeiras lutas de vale tudo em João Pessoa. Trabalhei como Juiz de luta e cronometrista e fui corner do Waldemar Santana em Fortaleza-CE. No começo o Vale Tudo era conhecido no Nordeste como Luta Livre Americana.

Porque o Sr. decidiu promover esse tipo de luta?
HL: Devido à amizade com o lutador Balbino e o Vitor Perusci que era dono de escritório de representação e era também presidente do clube independente que fica no bairro de Tambiá em João Pessoa.

Onde aconteciam as lutas na década de 60? Existia alguma infra-estrutura como atendimento médico?
HL: As lutas aconteciam na maioria das vezes no ginásio do SESC no centro da cidade ou no Clube Astréa. Eu convidava sempre algum médico para dar alguma assistência necessária aos lutadores.

Os lutadores saíam muito feridos?
HL: Nem sempre eles saiam feridos, pois eles usavam o tapa de mão aberta conhecido na época como “escala”, que é um soco, mas com a mão espalmada. A escala saia muito forte porque os lutadores treinavam escala em sacos de boxe. A maioria dos ferimentos era no supercílio. O atleta montava e com as pancadas que ele dava no rosto do adversário acabava abrindo o supercílio. Eram válidas joelhadas e cotoveladas, mas eram proibidos pisões. Eram seis rounds de 5 minutos ou três rounds de 10 minutos.
 
Qual era o valor que os lutadores ganhavam na época?
HL: O valor dependia da bilheteria. Tiravam-se as despesas e dividia a bolsa. Nos valores de hoje cada lutador ganhava cerca de R$200,00.

Qual a melhor luta que o Sr. assistiu?
HL: A melhor luta que eu vi foi a luta entre Ivan Gomes e Pinheirão em 1961 que ocorreu em Fortaleza-CE. Essa luta me marcou muito pela violência que foi. De Fortaleza voltei definitivamente para João Pessoa e fui procurar o Ivan em Campina Grande e dai nos tornamos grandes amigos. Era um grande homem muito compreensivo e humilde.

Ainda hoje as condições dos lutadores nordestinos são bastante precárias. Os lutadores viviam somente das bolsas pagas nas lutas?
HL: Não. Até hoje os lutadores da região precisam atuar em outras profissões para conseguir seu sustento. A maioria exerce trabalhos braçais como pedreiro, ajudante e segurança de estabelecimentos comerciais.

O Sr. com certeza conheceu muitos lutadores do Norte / Nordeste do Brasil e que hoje são anônimos. Fale sobre alguns:
HL: -Fidelão: Aprendeu com seu irmão Fidelis. Depois treinou com Hayashi Kawamura e depois em Natal treinou com Chico Hemetério.
-Pantera do Norte: Treinou com Hayashi Kawamura.
-Balbino: Começou com Sargento Ribeiro treinando luta olímpica. Ele era estivador em Cabedelo-PB e começou a fazendo halterofilismo, que hoje é conhecido como musculação.
-Biuce Osmar: Foi aluno de Herondino e depois de Agatângelo.
-Pinheirão: Seu técnico era o capitão Toninho da PM. Eu o considero um dos lutadores mais valentes. Ele lutava no máximo quatro vezes no ano. Ele entrava, derrubava, montava e terminava a luta. Foi o adversário mais difícil que o Ivan teve.
-Bernardão: Era fuzileiro naval e tinha um físico muito forte. Aprendeu a lutar no Rio de Janeiro. Tinha 52 cm de braço e 110 kg de músculo.
-Sales: depois de Ivan Gomes, um dos melhores lutadores que conheci.
-Waldemar Santana: Grande lutador e excelente pessoa. Sofreu muita discriminação por ser negro. Foi um desbravador, pois foi para o Rio de Janeiro e depois da luta com Hélio Gracie, passou a viajar o Brasil buscando desafios. Pena que foi pouco reconhecido no Brasil.

O Sr. conheceu o Takeo Yano?
HL: Apenas o assisti numa exibição junto com Sakai em 1951 no campo do Cabo Branco. Eles demonstraram várias quedas e foi espetacular. Muita técnica.

O senhor chegou a treinar jiu-jitsu?
HL: Quando fui morar em 1960 em Fortaleza, conheci a academia Alencarina do faixa preta Jucelino Costa, onde viramos grandes amigos. Foi inclusive quando conheci o grande Mestre Hélio Gracie que foi fazer uma apresentação nesse mesmo ano. Aliás, a parte de defesa pessoal no Jiu Jitsu está extinta. O pessoal só quer saber do esportivo, mas na minha época o principal era saber se defender numa situação de perigo real. Uma coisa que nunca esqueço foi quando o mestre Helio falou que a defesa pessoal era essencial no jiu-jitsu e o ideal era treinar a defesa pessoal com facas e revolveres(descarregados ) verdadeiros para dar realidade ao treinamento.
Atualmente os únicos que ainda sabem defesa pessoal são os mestres antigos como Hayashi Kawamura e Jurandir Moura. Tem também o Índio e Euclides Pereira que foram segurança do senado federal.

Como era o famoso programa TV Ringue Torre?
HL: Foi um grande sucesso e era transmitido na década de 60 pela TV do Jornal do Comercio de Recife todas as Segundas–feiras para todo nordeste. Era patrocinado pela Indústria de Camisas Torre, por isso o nome. Os melhores lutadores passaram por lá, como Euclides Pereira e Ivan Gomes, mas passaram também lutadores fortes, porém sem técnica. Quando um desses lutadores fortes sem técnica enfrentava um campeão, a luta acabava rápido e o publico as vezes pensava que era marmelada.

Quando e porque o Sr. deixou de atuar como promotor de lutas?
HL: Eu deixei de atuar em 1974 por problemas pessoais e algumas decepções. Mas mesmo assim eu estou sempre assistindo e acompanhando os eventos, pois gosto de lutas.
 
É verdade que sua “escala”  ainda faz efeito?
HL: Eu treinava escala aqui em 1958 mais não era do jeito certo e quando fui morar em Fortaleza em 1960, conheci na academia Alencarina o Jucelino Costa que foi meu professor e corrigiu meu treino. Quem também me ensinou o primordial para uma escala eficiente foi o Theogenes Moreira que era da academia e já lutava vale tudo há vários anos.
Hoje minha escala não está com muita força, mais se eu bater, o cara ainda faz cara feia (risos).

Uma última mensagem para a nova geração?
HL: Que tenham Humildade, respeitem os seus mestres, levem uma vida saudável, treinem e se aperfeiçoem. Agradeço ao meu amigo Dinaldson “Dolinha” e a equipe do site BRASIL COMBATE pelo incentivo e reconhecimento que tem me dado. Um abraço para os meus amigos Euclides Pereira, Oswaldo Paquetá, Bani Cavalcante e Oswaldo Alves.

FABIO QUIO TAKAO
AGOSTO DE 2009

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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Mestre Armando Wriedt - uma vida dedicada ao jiu-jitsu (Relembrar é viver)

Tags: - Guga Noblat às 13:16:23

Armando Wriedt

Armando Wriedt

Por Marcelo Andreazza e Fábio Quio Takao, pesquisador e colaborador do blog:

Existem poucos nomes no mundo que podem ser chamados de professores de Jiu Jitsu com a benção do Grande Mestre Hélio Gracie. Fora seus filhos e alguns sobrinhos, o Grão Mestre forjou alguns nomes desde a década de 50 para que seguissem à risca os ensinamentos técnicos e também morais do Gracie Jiu Jitsu.  Dentre esses poucos privilegiados, está o mestre Armando Wriedt.

Contrastando com o perfil agressivo que muitos lutadores atuais fazem questão de mostrar, Mestre Armando é completamente contra a violência. Apesar de parecer paradoxal um mestre da arte marcial mais eficiente do mundo ser pacifista, Mestre Armando nos mostra que a superioridade da técnica do Jiu Jitsu deve estar sempre acompanhada da evolução do espírito e da mente.

Atualmente Mestre Armando Wriedt reside numa chácara nos arredores de Brasília e goza de extrema disposição, principalmente quando o assunto é sobre o futuro do Jiu Jitsu. Professor da primeira geração da Academia Gracie da Av. Rio Branco, Mestre Armando foi aluno direto de Hélio Gracie e eventualmente Carlos Gracie. Não bastasse isso, foi companheiro de treinos de lendas como Carlson Gracie, João Alberto Barreto, Hélio Vigio e Robson Gracie.

Mestre Armando divide a gênese do Gracie Jiu Jitsu em duas fases. Na primeira fase, que vai da década de 20 até o final dos anos 40, Carlos e Hélio Gracie buscavam provar a eficácia do Jiu Jitsu através dos desafios de Vale-Tudo.  Na segunda fase, a partir da década de 50, houve a inauguração da Academia Gracie, a maior academia de Jiu Jitsu da história. Ainda havia os desafios de Vale-tudo, mas o Jiu Jitsu já era reconhecido e agora a preocupação central era a disseminação da arte e sua aplicação como defesa pessoal para o cidadão comum.

A autoconfiança que a arte proporcionava, a prática de exercícios físicos e a busca por uma dieta saudável transformavam os professores em verdadeiros sacerdotes e mestre Armando é espelho dessa devoção a Arte Suave.

Conforme nos revela o faixa vermelha 9º grau, outro dos diferenciais da Academia Gracie era o respeito com o aluno. Essa preocupação, Mestre Armando fez questão de levar para sua própria academia durante toda a vida.

Confirmando suas convicções pacifistas, Mestre Armando lutou Vale-Tudo três vezes por imposição de Hélio. A primeira delas em 1952 no Maracanã, na preliminar da luta entre Carlson e Passarito, em 02 de Maio de 1953. Nessa luta, Mestre Armando derrotou Edgar Santos em 30 segundos com um arm lock. A segunda luta foi contra um boxeador e Mestre Armando finalizou com um mata-leão. Em sua terceira luta, venceu um capoeirista com uma guilhotina.  O que podemos observar é que em todas as lutas, a preocupação do mestre era usar o Jiu Jitsu dentro de sua essência: submeter o agressor sem a necessidade de machucá-lo.

Contrário a direção que o Jiu Jitsu atual vem tomando, Mestre Armando acredita que o verdadeiro Jiu Jitsu baseado na defesa pessoal, está completamente esquecido em função do Go-Jitsu, o Jiu Jitsu esportivo de competição e o MMA moderno. Mestre Armando acredita que o treino dos lutadores atuais de MMA foge das técnicas básicas do Jiu Jitsu e dá muita ênfase a socos e chutes ou pugilato, como prefere chamar.

Outra preocupação do mestre é o despreparo ético e psicológico dos professores atuais. Mestre Armando acredita que professores precisam, acima de tudo, passar os valores como respeito ao próximo, disciplina e amor, complementos essenciais que transformam um simples lutador em um verdadeiro cavalheiro. Aliás, o conceito de Gentleman (cavalheiro) é sempre citado em seus comentários onde vislumbra que o verdadeiro Jiu Jitsu Ka(praticante de Jiu Jitsu) se destaca não só pela sua técnica em combate, mas pela forma nobre como conduz sua vida e trata seus semelhantes.

A seguir a entrevista que Mestre Armando nos concedeu.

1-Quantos anos o sr. está?
AW: Nasci em 17/10/1924.

Foto da equipe mais temida dos anos 50. Da esquerda para direita:

2-Como o Sr. teve o primeiro contato com o Jiu Jitsu?
AW: Eu nunca tinha ouvido falar em Jiu Jitsu. O Hélio Gracie me viu jogando basquete e gostou do meu desempenho. Começamos a conversar e ele descobriu que assim como ele, eu também gostava de montar a cavalo. Ele logo convidou para ir a sua casa para conhecer os cavalos dele. Foi daí que eu comecei a praticar o Jiu Jitsu na casa do Hélio em Teresópolis-RJ e começamos a estreitar nossa relação. Ele havia acabado de inaugurar a academia da Rua Rio Branco 151 -17º andar.
Eu já admirava a pessoa do Hélio Gracie e ao conhecer a Academia Gracie eu fiquei mais entusiasmado ainda. A academia era maravilhosa e aquilo me encantou. O ano era 1952.

3-Como era a metodologia dos treinos?
AW: Os treinos para os instrutores eram em grupo. O Hélio mostrava as técnicas e eu, o Carlson, o João Alberto e outros fazíamos juntos e ao mesmo tempo discutíamos e trocávamos idéias, pois cada um tem um estilo pessoal. O Hélio nos orientava e dentro do estilo de cada um  ia aparando as arestas.
Os treinos para os alunos regulares eram individuais. As aulas individuais duravam 30 minutos e não fazíamos a parte física. O Jiu Jitsu por si só já é uma atividade que trabalha muitos aspectos físicos. O treino era focado na defesa pessoal.
Mais tarde na minha academia eu também adotei o sistema de aulas individuais e nas Terças e Quintas eu dava uma aula em grupo, que era mais em conta para aqueles que não tinham muitas condições financeiras.

4-O Sr. chegou a ter contato com os outros irmãos Gracie?
AW: Com certeza. Quando eu comecei, o Carlos já não tinha mais obrigação de dar aulas, mas regularmente ele punha o kimono e ia nos orientar nos treinos. Eu conheci também o George porque na minha época ele já era adversário de Carlos e Hélio e as duas academias viviam se digladiando. Mas não cheguei a vê-lo lutar. O Gastão eu só conheci em 94 numa outorga de faixa que teve no Rio de Janeiro.

5- O Sr. comentou que não tinha golpe preferido e que aplicava aquele que tivesse oportunidade, inclusive chaves de pé. Ainda hoje, muitas academias tratam as chaves de pé como grosseria. Inclusive as regras proíbem a maioria das chaves de pé até a faixa marrom. O Sr. concorda com isso?
AW: As chaves de pé têm uma eficiência muito grande e por isso precisam de cuidado e da posição correta para serem aplicadas porque podem lesionar o adversário. Essas proibições esportivas são válidas porque servem para preservar a integridade do atleta. O Hélio e o Carlos diziam que uma finalização com chave de pé não é bonita. Eles preferiam chaves de braço. Eu sempre discordei e acredito que uma finalização com chave de pé bem aplicada é também muito bonita. Eu apliquei muitas chaves de pé e venci muitas lutas usando essa técnica. Porém, eu já tinha um nível que podia aplicá-las com segurança. A própria gravata pode machucar a coluna cervical se for mal aplicada.

6- O Sr. adotava a dieta Gracie?
AW: Eu fazia e faço até hoje. Acho que todos deveriam adotar essa dieta, pois ela é fantástica. Ela é baseada na dieta do argentino Dr. Juan Esteves Dulin.

7-O Sr. acredita que o Jiu Jitsu original de defesa pessoal pode ser resgatado?
AW: Acredito que isso é quase inexeqüível, pois para tanto precisaríamos de academias para preparar professores, onde se daria ênfase para esse tipo de Jiu Jitsu. Hoje só temos o Go-Jitus, que é o Jiu Jitsu voltado para competição.
Inclusive eu tentei criar uma escola voltada para a formação de professores. É muito difícil porque acredito que essa escola deveria estar vinculada a algum órgão do governo para que pudesse ser reconhecida oficialmente. A própria Academia Gracie expediu diplomas que tem um valor simbólico imenso, mas que oficialmente não tem reconhecimento, porque a academia não é vinculada a nenhum órgão do governo. Apesar de um professor com diploma ter capacidade e exercer sua função, ele não tem o mesmo reconhecimento oficial e conseqüentemente os mesmos direitos que um professor de educação física, por exemplo.

8-O Sr. é admirador de personalidades notáveis como Gandhi. Atualmente a maioria dos professores se apega somente ao lado comercial e muitas vezes ensinam até mesmo pessoas de caráter duvidoso. O Sr. já se deparou com esse tipo de aluno?
AW: Felizmente eu nunca tive esse problema, nem na Academia Gracie e nem aqui em Brasília. Acredito que graças ao nome que venho construindo, a localização da academia e até mesmo a decoração que era feita na academia acabava por não atrair pessoas de má índole. O praticante de Jiu Jitsu deve ser acima de tudo um “Gentleman” (cavalheiro).

Héio Vgio, Severiano, Rose Gracie, João Alberto Barreto, Armando Wriedt, Carlson Gracie e ? na casa de Teresópolis na década de 50.

Da esquerda para direita: Héio Vígio, Severiano, Rose Gracie, João Alberto Barreto, Armando Wriedt, Carlson Gracie e ? na casa de Teresópolis na década de 50.

9-Quais são seus alunos que mais se destacaram?
AW: Eu considero que os mais importantes foram aqueles que o Jiu Jitsu ajudou a sair de alguma situação difícil na vida. Eu tive um aluno que estava em vias de ser internado em uma clínica para doentes mentais e o Jiu Jitsu o ajudou na recuperação. Esse foi realmente um bom Jiu Jitsu Ka (praticante de Jiu Jitsu). Alguns que se destacaram como professores foram o Geni Rebelo e o Junior “Popó”.  Outra coisa positiva é que eu preparei os responsáveis pela parte de lutas na divisão de educação física do exército. Era o Coronel Alzir Nunes, o Capitão Silvares e o Capitão Leitão da Cunha. Eu nunca me preocupei muito com a parte de competição. Mesmo assim meus alunos são com bons atletas, como por exemplo, o Junior que preparou o Athaíde. O Athaíde por sua vez preparou o Rany Yahya, o Tiago e outros.

10-O Sr. ainda acompanha os torneios de Vale Tudo?
Sim com certeza, pois é uma maneira de me manter atualizado sobre o mundo das lutas. Como eu poderia criticar se eu não assistisse os novos lutadores? Infelizmente eu não vejo os lutadores aplicarem mais o Jiu Jitsu. O próprio Rickson Gracie se utiliza mais do pugilato. Esse tipo de luta, onde prevalece o pugilato e os lutadores saem sangrando não me agrada porque acho violento e vai contra minha maneira de ser.

11-Os atletas de Jiu jitsu dão pouca ênfase para as quedas e projeções. O Sr. exigia que seus alunos treinassem essa parte?
AW: Eu não exigia, aliás, eu não obrigava o aluno a fazer nada. Na Academia Gracie nós aprendíamos que tínhamos que respeitar os alunos e eu pedia “por favor” até mesmo para o aluno se deitar para eu mostrar uma posição. Como eu disse, minha maior preocupação era com a parte de defesa pessoal.  Agora é claro que quando o aluno passa a competir eu tento conscientizar ele da necessidade de treinar essa parte. Como dizem os Judokas, o bom Judoka é aquele que sabe cair bem. Se o lutador não souber cair bem, ele pode se machucar gravemente ou perder os sentidos numa queda. Realmente a parte em pé do Jiu Jitsu sempre foi fraca.

12-Quando o Sr. teve o primeiro contato com Judokas? O que o Sr. achou?
Quando eu tinha a academia no Rio de Janeiro, houve uma vez que chegaram 3 judokas. Um foi pra Brasília, outro pra São Paulo e um para o Rio de Janeiro. O que veio para o Rio foi fazer uma demonstração na academia do Hinata que era outro bom Judoka. Eu gostei tanto da apresentação que o contratei para me ensinar a parte de projeções. Ele ensinava dentro do método japonês. Depois de umas 10 aulas, eu resolvi parar, porque eu estava deixando de dar aulas e vi que o segredo, como em toda arte marcial era a prática exaustiva. Como no próprio Jiu Jitsu, a espontaneidade é fruto do muito exercício. O interessante é que a filha dele de 16 anos, que se chamava Missao, era a intérprete dele. Era interessante que na minha academia ele usava a faixa azul. Ele inclusive disse que eu tinha que providenciar uma faixa preta para mim e o certificado da Kodokan. Ele como representante da Kodokan, poderia providenciar isso. Na época no Rio de Janeiro só tínhamos o Augusto Cordeiro era representante da Budokan.
Conheci aqui em Brasília também o Anelso Guerra. Ele treinou na Kodokan muitos anos. Antes de ir para o Japão, ele já tinha treinado com o Sardela, que é faixa preta de Judô e também treinou Jiu Jitsu comigo muito tempo. Após ele retornar do Japão, ele convidou o Sardela e a mim para mostrar algumas posições que ele havia aprendido na Kodokan e que ele achava importantíssimas. Eu fui junto com o Sardela e todas as posições que ele mostrou foram inócuas ou já eram conhecidas por nós. Mas como eu já disse, realmente é uma falha do Jiu Jitsu Ka não praticar a parte de projeções e quedas.

13-O Sr. citou o Euclides Pereira e o Ivan Gomes como sendo os melhores lutadores fora da família Gracie. Qual deles o sr. considera melhor?
AW: De todos os lutadores que conheci, o Ivan Gomes era muito bom, pois era um sujeito fortíssimo. Era tranqüilo nas lutas. Ele te dava um sopapo sorrindo. Agora eu cito o Euclides Pereira como ótimo. Veja bem, ótimo é melhor que bom! Ele não tinha o peso e a força do Ivan Gomes, mas tinha muita técnica e por isso que ele nunca perdeu pro Ivan nas várias lutas que fizeram.

14-O Sr. acredita que seria possível unir a eficiência do Jiu Jitsu com uma conduta filosófica  mais rígida?
Aw: O Jiu Jitsu é uma filosofia, uma ciência e uma arte. É uma arte onde você aprende a vencer cedendo. Eu acho possível unir a eficiência à filosofia sim. O Jiu Jitsu que eu sempre preguei e que sempre vou pregar até o final da minha vida é transformar o Jiu Jitsu Ka antes de tudo em um “Gentleman” (cavalheiro). Ele deve tratar bem todas as pessoas e fazer sempre prevalecer o amor, que era o que pregavam pessoas como Jesus e Gandhi.  Sem amor você não chega a lugar nenhum. Isso é difícil de perpetuar, porque você tem que estar bem junto dos alunos para poder sempre buscar essas virtudes. É como se fosse uma espécie de religião. Para que pudéssemos ter uma filosofia aliada à arte, voltamos aquele ponto de ser necessária uma escola regulamentada por órgãos oficiais que formasse professores capacitados tecnicamente, mas que também tivessem uma conduta de vida que fosse exemplar.

MARCELO ANDREAZZA / FABIO QUIO TAKAO

ENTREVISTA COM MESTRE ARMANDO WRIEDT REALIZADA EM 28/02/2009

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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Aderbal Bezerra – O início do Vale Tudo no Rio Grande do Norte

Tags: - Guga Noblat às 12:16:40

Por Fábio Quio Takao, pesquisador e colaborador do blog:

Somente a partir da década de 90 após o fenômeno UFC que os lutadores brasileiros começaram a se tornar referência mundial nas lutas, porém, a tradição do Vale Tudo já é antiga em nosso país.

Grande parcela dessa tradição foi graças as família Gracie. Porém, existiram muitos outros nomes que tiveram também importância fundamental para a sedimentação desse esporte. Muitos desses nomes vieram da região nordeste do Brasil e tiveram suas origens graças ao programa TV Ring Torres, que exibia na década de 60 as lutas de Vale Tudo, na época conhecidas como Luta Livre Americana.

Poderíamos chamar esse período como a “Época de Ouro” do Vale Tudo nordestino e um grande lutador dessa fase foi Aderbal Bezerra. Um dos lutadores mais ativos do Rio Grande do Norte e região nas décadas de 50 e 60, vamos conhecer um pouco mais sobre esse grande lutador. 

Aderbal por cima castigando o adversário

Aderbal por cima castigando o adversário

Aderbal Bezerra - o Vale Tudo do Rio Grande do Norte

 Aderbal Bezerra da Cunha nasceu em 04/10/1929, em Serra Negra do Norte-RN. Caçula de seis irmãos, Aderbal ficou órfão de pai logo após seu nascimento e sua família passou por dificuldades durante sua infância e adolescência.

Aos 17 anos, Aderbal recebe do irmão um convite para se mudar Rio de Janeiro. Logo após sua chegada, alista-se na Marinha e permanece como fuzileiro naval por dois anos. Esse período foi de fundamental importância para a formação do que viria ser o lutador Aderbal, pois na Marinha muitos fuzileiros se dedicavam a prática de Halterofilismo e a prática de Luta Livre.

Logo após sua saída da Marinha em 1948, Aderbal passa a praticar Luta Livre e participar de competições pelo Clube Flamengo do Rio de Janeiro e viaja para diversas cidades sempre conseguindo bons resultados. Em várias cidades que percorreu, Aderbal filiou-se a diversas Federações de Pugilismo. Aderbal era registrado em Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e em Manaus; nesta última cidade residiu por dois anos, onde fundou uma Academia de Luta e Defesa Pessoal.

Marinheiros e Fuzileiros Navais treinando halterofilismo em 1947. Aderbal Bezerra está na última fila, 1º da direita para esquerda.

Marinheiros e Fuzileiros Navais treinando halterofilismo em 1947. Aderbal Bezerra está na última fila, 1º da direita para esquerda.

 Em 1953 aconteceu em Natal a primeira luta de Vale Tudo do estado. Aderbal enfrentou Bernardão, que viria a ser seu principal oponente durante muitos anos. A luta foi descrita por Osmar Mozinho de Oliveira “Biuce”, professor pioneiro da época, como caótica: “Foi a maior luta que houve no Estado do Rio Grande do Norte, eram dois homens muito fortes, com muita energia e muito jovens; o ringue tinha sido montado em cima dos tambores de gasolina; no decorrer da luta, o ringue quebrou-se e era tambor por todos os lados, o povo correndo, outros segurando Aderbal para ele não matar Bernardão e este sendo pego também por outras pessoas. Os tambores foram tirados e a luta continuou sem o ringue.”

Aderbal no auge da forma fsica

Aderbal no auge da forma física

 Residindo em Natal, Aderbal conhece Chico Ribeiro que já praticava Jiu Jitsu e passa a aperfeiçoar a técnica de Aderbal ainda mais. Nessa época havia sido fundada a primeira academia de Jiu jitsu de Natal, a Academia França que tinha como instrutor o militar Dupont Saraiva.

As Lutas em Natal passaram a se tornar um espetáculo atrativo ao grande público e eram anunciadas nos jornais locais e em carros de som. A popularidade era tanta que até mesmo o prefeito de Natal Alberto Maranhão chegou a praticar a Luta Livre, além de incentivar e promover as lutas. Outro grande incentivador e patrocinador foi o empresário Sírio-Libanês Nagib Salhas, dono da Casa Duas Américas. Nagib nutria grande amizade por Aderbal e foi de extrema importância para o fomento do Vale Tudo na região.

Aderbal de camisa listrada do Clube ABC e ao lado esquerdo o patrocinador Nagib Salhas

Aderbal de camisa listrada do Clube ABC e ao lado esquerdo o patrocinador Nagib Salhas

 Os espetáculos aconteciam geralmente aos Sábados, as 21:00h e com lutas preliminares antes da principal. Os embates eram seis rounds de cinco minutos por dois de descanso. A vitória era por desistência do oponente ou nocaute. A renda líquida da bilheteria era do vencedor. Caso houvesse empate, a bolsa não era paga e a revanche era marcada já no final da luta.

A partir de 1954 Aderbal participa de diversas lutas com os maiores nomes do Vale Tudo do nordeste e do Brasil. Contemporâneo de lendas como Valdemar Santana, Takeo Yano, Euclides Pereira e Ivan Gomes, Aderbal enfrentou a todos eles, ganhando algumas e perdendo outras, mas sempre mantendo um número de lutas que assustaria a qualquer profissional do MMA moderno.
Por volta de 1955, Aderbal inicia na cidade de Caicó no Rio Grande do Norte a implantação das lutas de Vale Tudo. De personalidade amigável, Aderbal vencia as dificuldades para promover as lutas com a ajuda do primo e amigo José Lucas, na época, funcionário do Banco do Brasil em Caicó. Lucas costumava ajudá-lo buscando patrocinadores usando de sua influência no comércio e, algumas vezes, emprestando dinheiro a Aderbal para a montagem do ringue.

Nomes pouco conhecidos no sudeste, mas que foram de suma importância para o Vale Tudo, foram adversários constantes de Aderbal. Dentre eles podemos citar Touro Novo, Leão do Norte, Fidelão, Gato Selvagem, Teles, Diderot e muitos outros.

As lutas muitas vezes proibiam socos de mão fechada, mas a violência era tamanha que o Vale Tudo sem nenhuma regra era comum. No depoimento de Tarcísio Segundo de Medeiros, morador de Caicó dessa época: “Quando Aderbal voltou a residir em Caicó, no local onde funciona a Rádio Rural AM de Caicó,  … houve uma luta extraordinária de Aderbal e Fidelão. Como o local era um pátio aberto, as pessoas pulavam dos prédios vizinhos… e essas pessoas conseguiam entrar de graça, tamanha era a euforia do público. Foi oficialmente publicada como luta livre e no decorrer da luta Fidelão saiu das regras da luta livre passando a praticar o Vale-Tudo, quando Aderbal perguntou em voz alta se a luta era vale-tudo ou luta livre,  Fidelão respondeu: é vale-tudo! Aderbal utilizando de sua técnica levantou o lutador adversário jogando-o no ringue, que ficou quebrado, não havendo mais condições para a continuação da luta e o juiz resolveu pôr fim à luta, considerando Aderbal como vencedor do embate.”

Aderbal enfrentou os maiores nomes do Vale Tudo como Ivan Gomes (cartaz do acervo de Hugo Lira)

Aderbal enfrentou os maiores nomes do Vale Tudo como Ivan Gomes (cartaz do acervo de Hugo Lira)

Em 1958, a Federação De Pugilismo do Rio de Janeiro convida Aderbal a se juntar a uma equipe composta de lutadores como Takeo Yano, Valdemar Santana, Passarito, Chouberi e outros. Essa equipe passa por diversas cidades do Brasil como Belo Horizonte, Belém do Pará e Fortaleza fazendo demonstrações. Além dessas cidades, o grupo passa por diversos países como Uruguai, Paraguai, Peru, Argentina desafiando lutadores locais. A equipe chega a permanecer quatro meses em Caracas na Venezuela marcando o auge da carreira de Aderbal.

Outro grande momento da carreira de Aderbal foi vencer o instrutor da Polícia Federal do Rio de Janeiro Karol Nowina, que havia lançado um desafio a qualquer lutador de Luta Livre da época. Ainda no auge de sua carreira, Aderbal Bezerra enfrenta um dos maiores judokas de todos os tempos: Massahiko Kimura. Kimura já estivera no Brasil e havia vencido ninguém menos que Hélio Gracie. Em sua segunda visita buscava alguém para poder demonstrar sua técnica e Aderbal foi escolhido por seu porte físico e conhecimento em lutas. Infelizmente sobre essa segunda passagem de Kimura pelo Brasil  existem poucos relatos.

Foto rarssima mostrando a 2ª visita de Kimura ao Brasil. Aderbal em pé o primeiro da esquerda para direita. Kimura, sentado, o segundo da esquerda para direita. Takeo Yano, sentado, o quarto da esquerda para direita.

Foto raríssima mostrando a 2ª visita de Kimura ao Brasil. Aderbal em pé o primeiro da esquerda para direita. Kimura, sentado, o segundo da esquerda para direita. Takeo Yano, sentado, o quarto da esquerda para direita.

Já na década de 60, Aderbal se junta a Osmar  Mozinho “Biuce”, um dos primeiros professores de Ivan Gomes . Aderbal financia a abertura de uma academia em Caicó e Biuce passa a ensinar Luta Livre, Judô e Defesa Pessoal. Paralelamente às lutas, Aderbal também era convidado a trabalhar em vários eventos em Caicó, como segurança em festas de clube, em campanhas políticas e como fiscal nas eleições. Além disso, era constantemente requisitado pela polícia da cidade para ensinar defesa pessoal.  

Em 1976 aos 47 anos, Aderbal encerra sua carreira e compra um sítio e passa a viver com a família. Ao longo da vida, Aderbal teve diversas esposas e filhos. Com sua última esposa, Marlete, teve seis filhos. Em fevereiro de 1984, Aderbal adoece e o diagnóstico de esquissostomose demora a ser descoberto. Em 12 de Junho de 1984 Aderbal faleceu aos 54 anos.

 Marlete mantem em funcionamento uma academia de musculação em Caicó em memória ao marido e sua filha Aderleth, fez uma importante pesquisa sobre o pai. Além disso, Aderleth promoveu em 2006 uma mostra com fotografias de Aderbal Bezerra na inauguração da Casa de Cultura de Serra Grande do Norte, terra natal de Aderbal. Essa exposição continua disponível e nos permite conhecer um pouco mais sobre esses importantes nomes do Vale Tudo brasileiro.

Aderbal imobilizando Bernardão.

Aderbal imobilizando Bernardão.

(Colaboração Aderleth Bezerra / Dinaldson “Dolinha” / Hugo Lira)

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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Flávio Berhring e a missão de partilhar o Jiu-Jitsu

Tags: - Guga Noblat às 13:14:14

Flavio e seu mestre João Alberto

Flavio e seu mestre João Alberto

Por Fábio Quio Takao, pesquisador e colaborador do blog:

Não é exagero afirmar que o Grande Mestre Flavio Behring é a personificação de um verdadeiro MESTRE DE ARTES MARCIAIS, daqueles que só encontramos nos antigos manuscritos orientais. Além de seu profundo conhecimento técnico sobre o Jiu Jitsu Gracie, mestre Flavio possui um carisma e simplicidade que contagiam e denotam um amplo entendimento do ser humano como um todo.
 
O faixa vermelha 9º grau nasceu no Rio de Janeiro em 21 de Novembro de 1937 e ao contrário do físico avantajado que ainda hoje enverga, sua infância foi acometida pela asma e pela fragilidade física.

O pai de Flavio, Sylvio de Macedo Behring, sabia que existia uma arte marcial que proporcionava não só eficiência na defesa pessoal como também acabava com a insegurança, a real causadora dos males de Flavio. Foi então que recorreu ao seu amigo Hélio Gracie e matriculou seu filho em 1947, aos 10 anos de idade na Academia Gracie.
 
Mestre Flavio Behring é hoje um dos Grandes Mestres mais tradicionais do Jiu Jitsu Gracie. Oriundo de uma família que sempre teve a educação dos filhos como principal preocupação, Mestre Flavio, além de uma educação acadêmica impecável, foi aluno do maior professor de Jiu Jitsu de todos os tempos: Hélio Gracie.

Com Hélio, o então garoto Flavio teve seu primeiro contato com o Jiu Jitsu e conclui o famoso curso completo de defesa pessoal da Academia Gracie. Seu segundo professor, e não menos importante, foi o então jovem João Alberto Barreto, que foi quem o formou como professor e lutador.
 
Fruto da primeira geração de professores da Academia Gracie, mestre Flavio Behring tinha como exemplos e companheiros de treinos: João Alberto Barreto, Carlson Gracie, Helio Vigio, Armando Viedrit dentre outros.
 
Estudioso do Jiu Jitsu foi o primeiro professor da Academia Gracie a praticar Judô com o sensei George Medhi, buscando melhorar suas técnicas de projeções.

Numa época onde o Judo buscava sua separação definitiva da denominação “Jiu Jitsu”, a Academia Gracie fazia constantes desafios aos Judokas e por isso  mestre Flavio Behring foi duramente criticado, mas manteve-se firme em suas convicções.

Mais tarde, orientou também seus filhos Sylvio e Marcelo a treinar Judo, primeiro com o sensei Hélcio Gama e depois com o sensei Medhi.
 
A academia Behring no condomínio Nova Ipanema, fundada em 1979 pelo mestre Flavio com a ajuda do amigo, aluno e Mestre Ricardo Murgel, foi um celeiro de campeões que viriam a se destacar nos anos 90. Auxiliado pelos filhos Sylvio, na faixa roxa, e Marcelo, ainda na faixa azul, deram os primeiros ensinamentos a nomes como Guigo, Nino Shembri, Jorge Pereira, Leo Dalla, Muzio de Angelis, dentre outros.
 
Outro grande feito de mestre Behring foi o impulso que deu ao Jiu Jitsu paulista na década de 90. Segundo o próprio mestre, mérito esse que cabe mais aos seus filhos, em especial ao Marcelo que protagonizou em 1991 um histórico desafio de Vale-Tudo entre o Jiu Jitsu e Full Contact, junto com Ralph e Renzo Gracie.

Casado duas vezes, mestre Flavio teve cinco filhos do primeiro casamento e três no segundo. Um dos golpes mais difíceis que sofreu foi a perda de seus filhos Marcelo e de sua caçula Beatriz.
 
Atualmente, o mestre passa a maior parte do ano realizando seminários ao redor do mundo em seus representantes e também em academias de outras modalidades de artes marciais.  Os detalhes demonstrados são muitas vezes sutis, mas que elevam as técnicas ao patamar da perfeição e deixam espantados até mesmo os mais experientes faixas preta.
 
Convicto de sua missão de expandir o Jiu Jitsu Gracie, Mestre Flavio faz parte de um conselho formado por faixas vermelhas com o objetivo de promover o Jiu Jitsu. Ao contrário das diversas Federações e ligas que se formam com o objetivo único de promover campeonatos esportivos e dar apoio a lutadores profissionais, A Jiu Jitsu International Red Belt Council  tem como objetivos:

“A Jiu Jitsu International foi criada como uma organização sem fins lucrativos para desenvolver o Jiu Jitsu como esporte amador;

O objetivo do JJI é criar uma Organização Internacional que irá manter a história do Jiu-Jitsu, desenvolver regras e padrões de classificação para competições, definir metas para a modalidade e regulamentar o sistema de graduações.

Deve ser o objetivo principal da JJI estabelecer, reconhecer e apoiar as organizações e membros individuais em todo o mundo, e trabalhar com o Comitê Olímpico Internacional para a inclusão de Jiu-Jitsu nos Jogos Olímpicos.”

O conselho é formado pelos grandes mestres João Alberto Barreto, Alvaro Barreto, Francisco Mansur e Flavio Behring.
 
Segundo o próprio Flavio Behring, algum tempo antes de partir, Marcelo pediu ao pai que continuasse com seu trabalho como professor, pois seria uma grande perda para o Jiu Jitsu não ter um mestre com tanto conhecimento orientando as novas gerações. Consciente de seu papel, mestre Flavio continua trilhando seu caminho e inspirando os apreciadores da Arte Suave.

ENTREVISTA FLAVIO BEHRING

Como o Sr. começou a treinar?
FB: Comecei aos 10 anos com Hélio Gracie. Eram aulas individuais, pois naquela época só existiam esse sistema de aulas. Como o objetivo principal era a defesa pessoal, era mais produtivo dessa forma. Em grupo o tempo necessário seria maior. Com essas aulas individuais de 30 minutos, era possível em 36 aulas dar condições ao indivíduo de se defender frente a várias situações de agressão.
E eu tinha uma dificuldade porque havia uma reação alérgica ao tatame que era coberto por uma lona de tecido acumulando impurezas que atacava minha asma, e às vezes eu nem queria ir à aula de Jiu Jitsu.
Em 1951 aconteceu um fato que me marcou muito. Eu tive um problema com um garoto mais velho no colégio que me bateu.  Aquilo foi uma humilhação para mim, pois a garotada dizia: como eu sabendo Jiu Jitsu poderia ter apanhado?
Apesar de eu já ter treinado, eu ainda não possuía a segurança psicológica necessária para reagir e isso acabou por refletir na minha vida. Meu pai percebeu e como era amigo do Hélio Gracie, pediu ajuda a ele.
Eu estudava em Botafogo e o Hélio foi me buscar na saída do colégio.
Ele era uma celebridade e imediatamente uma enxurrada de crianças o cercou.
Alguns colegas vieram me falar: “o Hélio Gracie está ai, e está te procurando!!”. Foi então que todos no colégio ficaram atônitos, pois não entendiam que como eu que havia apanhado, agora era procurado pelo “grande” Hélio Gracie em pessoa??!! Na hora que eu o encontrei ele estava falando com os garotos e dizendo que estava me procurando, que eu era aluno dele e não estava autorizado a bater em ninguém. Aquilo foi determinante para acabar com os comentários no colégio e me deu uma grande motivação. Ele me abraçou e fomos para minha casa. Disse para eu almoçar e depois passar na Academia Gracie, na Av. Rio Branco.
Chegando lá fiquei impressionado com o tamanho da Academia!
Ele veio ao meu encontro e disse que eu não podia parar de treinar. Além disso, disse que queria que eu fosse treinado para ser um professor da Academia Gracie, pois precisava de pessoas com minhas qualidades.
Chamou, então, o João Alberto Barreto, na época com 16 anos e já um instrutor da Academia e me apresentando disse: ”quero que você o prepare para ser um bom professor e um campeão.” Imediatamente eu me identifiquei com ele e aquele foi um grande degrau na minha escalada dentro do Jiu Jitsu, pois como eu tinha as tardes livres, ia para Academia e acompanhava todas as aulas que o João Alberto dava.

Os treinos eram somente com o João Alberto?
FB: Eu fui um privilegiado, porque apesar de passar a maior parte do tempo com o João Alberto, que era um gênio na arte de ensinar, volta e meia o próprio Hélio me chamava para me avaliar ou ajudar em alguma aula. Além disso, os outros professores da Academia que eram ninguém menos que Carlson Gracie, Robson Gracie, Hélio Vígio e Armando Wriedt adquiriram uma afeição por mim por ser o mais novo. Era comum o Carlson me chamar para testar algum aluno dele contra mim. Como ainda eram raríssimas as competições externas, competições internas eram promovidas de forma a nos motivar.

Como o Sr. começou a dar aulas?
FB: Quando eu estava com uns 17 anos (1955), o João Alberto teve que fazer uma cirurgia no joelho e era algo muito traumático na época. Como teve que ficar afastado vários meses, indicou-me para substituí-lo.
Eu já tinha então uma postura e metodologia muito parecidas com o João Alberto e os alunos gostaram muito da minha aula, pois já estavam acostumados com o João Alberto. Além disso, como eu já treinava o dia todo, adquiri um bom físico e aos 17 anos eu já tinha 1,80m e quase 90kg.

O Sr. chegou a participar de algum desafio de Vale Tudo?
FB: Constantemente vinham lutadores e valentões na Academia Gracie desafiando o Hélio para se promoverem. Ele escolhia algum aluno e caso o lutador vencesse, ele adquiria o direito de enfrentá-lo. É claro que nunca alguém conseguiu passar.
No entanto minha primeira luta foi aos 14 anos e para mim, foi mais marcante. Um dia o Carlos Gracie me chamou e pediu para pegar o kimono que íamos sair. Seguimos para a Associação Cristã de Moços que era no Castelo. Eu fui achando que era mais uma das inúmeras demonstrações que fazíamos. Eu sempre era requisitado para demonstrar técnicas de defesa pessoal com o João Alberto Barreto e acabei me especializando muito nisso. Foi só lá que eu percebi que eu lutaria um desafio. Isso era bastante comum na Academia Gracie. Os lutadores de ponta e instrutores tinham que estar sempre preparados e para testar isso, os desafios não eram comunicados antecipadamente.
O meu adversário era um aluno do Grande Mestre Fadda, e já tinha por volta de 20 anos. Além disso, ele era também faixa preta de Judô. A luta seria num ringue de boxe. Como a Academia Gracie era a mais famosa, tínhamos uma torcida contra, pois todos queriam ver alguém derrotar o Jiu Jitsu Gracie. Lembro bem que eu estava com as pernas tremendo e fui empurrado pelo João Alberto para dentro do ringue. Era o primeiro desafio daquele garoto que havia se acovardado na escola. Estava eu dentro do ringue junto com o Carlos Gracie, que seria o juiz, dando as instruções e começamos a lutar.
Começou a luta e eu levei uma série de quedas mas num determinado momento o adversário me derrubou e me imobilizou.  Eu imediatamente passei a mão por trás de pescoço dele e apesar de não conseguir ir para as costas, consegui executar o estrangulamento. Eu gritei para o Carlos: “Ele apagou!!”.
O Robson era responsável por soar o ringue e o Carlos pediu para ele soar imediatamente. Para minha surpresa, meu adversário foi reanimado rapidamente e quis continuar com outro round, alegando que não havia apagado.  Ficou decidido então que a luta continuaria. Novamente ele me derrubou várias vezes e novamente me imobilizou na mesma posição. Eu entrei novamente com o mesmo estrangulamento e ele tentou proteger, primeiro com o queixo, mas a gola já havia entrado e depois ele tentou abaixar a cabeça.  Novamente ele apagou e eu olhei pro Carlos que estava bem próximo.  Para minha surpresa ele sussurrou: “Aperta!!!”(risos).  Quando o adversário começou a babar em cima de mim, o Carlos mandou parar. Ele começou a ter algumas convulsões e depois foi reanimado. Finalmente meu braço foi erguido como vencedor e não houve mais dúvida nem para ele e nem o público sobre o resultado da luta.
Foi um marco para mim. Quando voltei pro vestiário, todos da Academia estavam me parabenizando e logo em seguida chegou o Hélio Gracie e com seu estilo característico disse simplesmente: “Fez bem!!”.
O Carlos também veio depois e me disse: “Muito bem! Quando cair nessa situação, aperta mesmo!! Não dá mole pro adversário!”
Algum tempo depois dessa luta, apareceu um Judoka chamado Shimura (não confundir com Kimura), desafiando o Hélio Gracie. Como ele não era famoso, o Hélio disse que antes ele precisaria lutar com o Carlson.  Foi aí que uma tarde o Carlos me chamou na academia e fomos para a redação do Globo e depois no Jornal “A Noite”. Ele lançou um desafio que ao invés de enfrentar o Carlson, ele apostava uma quantia em dinheiro que o Shimura não iria nem passar por mim! O título da matéria era: “Jovem de 14 anos desafia Shimura”.
Na época as lutas de Jiu Jitsu tinham um enorme destaque na imprensa e no outro dia, ao chegar ao colégio, todos já sabiam do desafio. Agora aquele garoto que havia apanhado na escola, primeiro foi procurado pelo Hélio Gracie, depois desafiava publicamente um lutador Japonês. Por algum motivo, infelizmente o Japonês acabou não aceitando o desafio. Foi um grande passo para tirar toda a insegurança que eu tinha.

 
Mestre Flavio Behring sendo promovido a faixa vermelha 9º grau pelo seu professor Mestre João Alberto Barreto.

Houve outros desafios?
FB: Aos 17 anos eu já estudava a noite para passar o dia todo na Academia. O treino de Vale-Tudo fazia parte do nosso cotidiano, mas até então eu ainda não havia lutado em algum desafio sem regras. Foi então que o Hélio me chamou e disse que eu iria enfrentar um Capoeirista que estava na Academia.  O Hélio me orientou a não bater nele, só derrubar e finalizar. A luta foi muito rápida e ele nem teve tempo de reagir, pois eu o estrangulei fazendo-o bater. Ele levantou e o Hélio perguntou: “Quer mais?”. Ele inconformado quis lutar novamente e tudo se repetiu. Eu já havia absorvido um dos princípios da Academia Gracie que pregava que o lutador não tinha que pedir tempo para se preparar. O lutador da Academia Gracie tinha que estar preparado sempre a qualquer dia e em qualquer situação.

Quando o Sr. iniciou, já havia uma consciência da superioridade da técnica do Jiu Jitsu?
FB: Quando meu pai me levou na casa do Hélio Gracie aos 10 anos, a primeira coisa que me despertou foi uma profunda admiração por ele. Hélio Gracie era um homem já de meia idade, simpático e com uma capacidade de ensinar qualquer um rapidamente. Em minutos você já conseguia executar alguma técnica do Jiu Jitsu. E todos sabiam que seu grande feito era transformar pessoas inseguras em homens confiantes. Eu era justamente um garoto com asma e raquítico e encarei aquilo como algo lúdico. Eu iria lá para “brincar” de luta. Com o passar dos anos fui assistindo e participando dos desafios, e foi só aí que tomei consciência da perfeição do Jiu Jitsu.
A perfeição da técnica era aliada a lutadores talentosos. O Hélio Gracie era um “garimpeiro” para encontrar bons lutadores. Ao andar pelas ruas ele tinha a capacidade de reconhecer em pessoas aparentemente normais o potencial para lutar. Muito lutadores da Academia Gracie começaram sendo convidados na rua pelo Hélio. O mais famoso foi o Waldemar Santana.

Quando o Sr. decidiu abrir sua própria academia?
FB: Aos 18 anos meu pai já havia me orientado a continuar os estudos e começar a trabalhar. Eu queria ser professor de Jiu Jitsu, mas naquela época não existia nenhuma perspectiva financeira, pois nenhum dos professores pensava em abrir uma academia própria. Éramos todos engrenagens daquela grande e única máquina que era a Academia Gracie.
Antes disso, eu ao contrário da maioria dos jovens, decidi servir o exército. Foi um hiato que houve no Jiu Jitsu, onde eu passei a freqüentar a academia esporadicamente. E eu pude sentir isso através de uma experiência amarga. Um dia, fui à academia e fui finalizado por um aluno que eu freqüentemente vencia. Foi aí que o João Alberto me alertou sobre as conseqüências da minha ausência.  Logo em seguida eu comecei a trabalhar com publicidade e então eu passei de professor assíduo a uma pessoa com freqüência de aluno.
Felizmente, aos 20 anos eu consegui um horário no tatame da Associação Cristão de Moços e comecei a dar aulas. O time do Fluminense era a base da seleção brasileira de Pólo Aquático e como eram meus amigos, começaram também a fazer aulas comigo. Algum tempo depois, o João Alberto abriu a academia dele em Copacabana e me convidou para ajudá-lo.  Eu trabalhava com publicidade durante o dia e dava aulas à noite e fiquei muitos anos com ele.  O João Alberto formou-se em Direito e depois em Psicologia e decidiu fechar a Academia, pois ia abrir uma clínica. O irmão dele, Álvaro Barreto também tinha uma academia em Copacabana e boa parte dos alunos do João Alberto foi para lá.
Também fui convidado a dar aulas na Academia do Álvaro e fiquei com ele alguns anos também. Inclusive, meu filho Sylvio é formado pelo Álvaro Barreto.
No final da década de 70 montei, juntamente com o amigo e aluno Ricardo Murgel (faixa preta de judô) a primeira academia na Barra da Tijuca no Condomínio Nova Ipanema, num galpão improvisado e que acabou se tornando um celeiro de grandes campeões.

Seus filhos Sylvio e Marcelo já treinavam?
FB. Eles começaram muito cedo. O Sylvio foi graduado pelo Álvaro Barreto e o Marcelo pelo Rickson Gracie.  Tiveram toda formação de base comigo até os 14 anos e depois eu os deixava optarem para continuar com quem escolhessem.

O Sr. também treinou Judo?
FB: Num determinado momento, senti a necessidade de aperfeiçoar minha técnica de quedas. Desde 1951 eu era amigo do Sensei George Medhi, quando ele chegou ao Brasil e foi pra Academia Gracie. Ele já havia ido para o Japão treinar na Kodokan e era um exímio Judoka. Treinei com ele durante anos em sua academia em Ipanema, onde permanece até hoje.
Eu consegui então uma excelente técnica de pé graças ao Sensei Medhi,que além de técnica apurada, era fisicamente forte e muito experiente.
Eu fui o primeiro professor de Jiu Jitsu Gracie a treinar Judo. Isso foi por volta de 1962/63 e fui duramente criticado por isso. Até mesmo o Sensei Medhi foi criticado pela comunidade do Judo, pois eu fui disputar um campeonato de Judo e todos sabiam que eu era professor de Jiu Jitsu. Hoje os lutadores mais completos fazem isso, mas naquela época eu sofri um grande preconceito. Inclusive nesse campeonato, eu fiz cinco lutas e ganhei três por Ippon, mas acabei perdendo a final.
E quando o Sylvio e o Marcelo estavam na faixa azul, também os orientei a treinarem Judo com o Medhi. Sofreram muito na mão dele (risos). Eles participaram de vários campeonatos de Judo e foi muito importante para refinarem ainda mais a técnica além da parte disciplinar que o Judo imprime.

Como foi a mudança para São Paulo?
FB: Eu já havia morado em São Paulo entre 1971 a 1975 devido ao meu trabalho no Unibanco. Depois voltei pro Rio e novamente em 1987, recebi outro convite para trabalhar em São Paulo. Nessa época, o Marcelo tinha acabado de voltar da Austrália e percebemos que São Paulo havia muito campo para o Jiu Jitsu expandir. Eu já conhecia um pessoal da Companhia Atlética e propus a eles começarem um trabalho forte com o Jiu Jitsu liderado pelo Marcelo. Ele já era muito famoso no Rio, mas desconhecido em São Paulo.
Com as freqüentes idas para surfar no litoral paulista, começou a trazer o pessoal do surfe para os treinos do Jiu Jitsu. Sua capacidade de comunicação, sua determinação e ousadia no surf, alem de um comportamento auto-confiante, chamou a atenção dos demais surfistas que logo formaram um time de adeptos do Jiu-Jitsu.
Pouco tempo depois a academia estava lotada e então promovemos um seminário na academia do Otávio de Almeida . Na época compareceram os poucos faixas pretas que havia em São Paulo e eu, o Sylvio e o Marcelo fizemos uma apresentação.
Além da própria comunidade do Jiu Jitsu, as revistas especializadas em Surfe como a Fluir e a Revista Trip começaram a dar espaço para o Jiu Jitsu. O Paulo Lima, editor da Trip fez muitas entrevistas (tanto na revista quanto no seu programa de rádio) com o Marcelo e foi muito importante para divulgar a arte.
Outra grande alavancada foi o Vale-Tudo que o Marcelo fez em Fevereiro de 1992 em São Paulo. Numa luta contra o José Carlos de Jesus venceu por finalização em 37 segundos. Na mesma noite teve uma luta do Ralph e uma do Renzo Gracie que também venceram facilmente.
 
O Sr. acha que havia muita diferença entre o Jiu Jitsu carioca e o paulista?
FB: Existia uma superioridade no Jiu Jitsu carioca, principalmente no aspecto esportivo.
Eu dava aulas somente à noite por causa do meu trabalho e na verdade, eu credito a vinda do Marcelo como fator determinante para elevar o nível do Jiu Jitsu paulista, pois ele dava aulas o dia todo e com seu carisma conseguiu divulgar e permitir a expansão da arte em São Paulo.
Considero essa a minha maior contribuição, ter trazido o Marcelo para São Paulo.
O Sylvio também ficou em São Paulo alguns anos e contribuiu muito para o desenvolvimento de uma escola de base e para a formação de competidores e instrutores qualificados.
O nível do Jiu Jitsu esportivo carioca era realmente melhor que o paulista.
Esse fato se deve a grande expansão havida no início da década de 70 com a criação e formação da primeira Federação do Estado do Rio de Janeiro, cujo presidente era o Grande Mestre Helio Gracie, dos campeonatos organizados e do número de novas academias derivadas dos profissionais formados pelas escolas Gracie e Fadda.
São Paulo já tinha importantes professores como Gastão Gracie, Pedro Hemetério e Octávio de Almeida (sênior), e o restante das academias estava espalhado pelo interior de São Paulo,  todos alunos formados por George Gracie.
Era pequeno o numero de professores, para um estado tão populoso, e por isso os campeonatos eram raros.
Na cidade de São Paulo havia um trabalho evoluído de campeonatos feito pelo Octávio de Almeida (senior), basicamente voltado para crianças.
Além disso, os professores Gastão e Pedro Hemetério seguiam o princípio da Academia Gracie, que era enfatizar a Defesa Pessoal e aulas individuais.
Outro ponto importante é que quando vim para São Paulo, procurei não defender somente minha academia e meus afiliados. Eu dava seminário em todas as Academias que tinham interesse.
Dei aulas, por exemplo, para o pessoal do Judo do Sensei Shigueto Yamasaki.
Além de todo esse trabalho, nós fizemos de tudo para dar oportunidades para outros professores do Rio, como o Fabio Gurgel que começou a dar aulas numa grande academia de São Paulo graças à indicação minha e do Marcelo.

O Sr. dá muita ênfase ao Jiu Jitsu como forma de defesa. Por quê?
FB: O Jiu Jitsu brasileiro como é conhecido lá fora, é o Jiu Jitsu Gracie, que é o que eu ensino. Existem outros estilos de Jiu Jitsu que possuem outras formas e bases. O Jiu Jitsu japonês que foi transmitido à família Gracie tinha como base a defesa pessoal. A defesa pessoal é a estrutura de uma arte marcial. O objetivo da Defesa Pessoal é formar o indivíduo para que ele esteja preparado para enfrentar um combate. Somente através da defesa Pessoal é possível dar conhecimento e condicionamento técnico ao indivíduo para que ele possa conhecer a arte marcial com profundidade. Todos os outros componentes são decorrentes disso. A luta é o segmento esportivo do todo, que é a defesa pessoal.
Eu uso esse conceito nos meus seminários. Boa parte dos movimentos de Defesa Pessoal te levam ou induzem à luta no solo. Foi isso que Carlos e Hélio Gracie perceberam.
Quando eu comecei a aprender Jiu Jitsu na casa do Hélio Gracie, as aulas eram somente defesa pessoal. A “luta” era a parte recreativa. Algo para suar e se divertir. A preocupação principal era deixar o indivíduo apto a se defender em pé ou no chão.
Recentemente eu demonstrei na França que tudo que se pratica em termos de projeções, vem das posições de defesa pessoal. Por exemplo, dependendo do tipo de soco, é possível fazer 10 ou 12 projeções diferentes. A reação (defesa) vai depender do tipo de ação (soco).
O Judo no início, na sua essência era uma arte de defesa pessoal, mesmo porque deriva do Jiu Jitsu japonês.
A base do Jiu Jitsu de Carlos e Hélio Gracie era a defesa pessoal e a prática esportiva começou a se difundir muito a partir da década de 70 e foi aí que os aspectos principais começaram a ser perdidos, alijados ou distorcidos.
Muitos “mestres” ou “professores” atuais não têm essa formação básica, e concentram seu trabalho na luta, cujos resultados podem promover suas academias e conseqüentemente seus negócios.

Como o Sr. tem visto a evolução do Jiu Jitsu?
FB: O Jiu Jitsu tem que ser básico. O grande problema é que tem muitos “inventores” por aí e isso faz com que o Jiu Jitsu vire uma arte deformada. Na arte existe uma espinha dorsal que deve ser mantida.
Há alguns anos, o Hélio Gracie veio dar um seminário em São Paulo e eu exigi que todos meus alunos fossem e cheguei mesmo a pagar para aqueles que não podiam. Após o seminário um aluno veio me dizer “Mestre, a maioria das coisas que ele passou o Sr. já havia passado!” Eu disse:”Isso é muito bom, pois confirmava tudo aquilo que eu ensino”.
Seria muito preocupante se víssemos coisas que fossem contrárias ao que eu ensino todos esses anos. Essa similaridade é decorrência da minha formação com Hélio Gracie e João Alberto. Eu posso ter uma visão diferenciada de algumas técnicas e algumas variações, mas elas não podem ser contrárias as que me foram ensinadas. Eu faço do meu dia-a-dia um laboratório para sempre aperfeiçoar as técnicas. Em todo seminário eu começo dizendo: “Perguntem: Como? Por quê? Onde?

E quanto ao aspecto filosófico do Jiu Jitsu?
FB: Várias pessoas têm me perguntado sobre isso, principalmente fora do Brasil. O Jiu Jitsu não tem uma filosofia. Eu tenho a minha filosofia, mas não podemos dizer que o Jiu Jitsu tem uma linha filosófica. Ele tem uma linha em relação aos aspectos técnicos e alguns preceitos que Hélio e Carlos Gracie pregaram abordando a conduta e dieta do praticante. Mas é algo pouco difundido entre as academias se comparado às outras artes orientais. O Judô, por exemplo, tem uma espinha dorsal filosófica fundamentada por Jigoro Kano. Uma academia de Judô em qualquer lugar do mundo tem uma foto do Jigoro Kano. Todas as academias de Aiki-Do tem a figura de Morihei Ueshiba e possuem uma linha filosófica bem clara.
Eu exijo que as academias que me representam tenham uma figura do grande mestre Hélio Gracie, mas em outras academias é difícil você ver.
A maioria das academias acha que estar vinculado ao Jiu Jitsu já é suficiente para estar vinculado ao nome de Hélio Gracie. E não é. Praticar o Jiu Jitsu Gracie é estar subordinado a todo um conceito que foi desenvolvido pelos Mestres Carlos e Hélio Gracie, mas hoje poucas seguem essas diretrizes. Talvez a palavra diretriz se encaixe melhor que a palavra filosofia.
 
E como Sr. analisa os lutadores e professores de Jiu Jitsu que estão se mudando do Brasil?
FB: Há muito tempo meu filho Sylvio fez um prognóstico que os melhores lutadores e professores de Jiu Jitsu iriam embora do Brasil. Ele tinha razão, pois isso já acontece com os lutadores. Ainda existem excelentes professores aqui, mas alguns também estão mudando ou já se mudaram especialmente para os Estados Unidos.
Eu acredito que deveria ser feito um trabalho institucional para cuidar do Jiu Jitsu Gracie brasileiro. Não me refiro a trabalhos particulares de abrir academias e formar lutadores, mas alguma entidade que cuide para que essa arte não seja tomada dos brasileiros. Eu acredito que com a estrutura que os americanos têm isso pode acontecer muito rápido. Até mesmo a federação brasileira já tem uma federação “Internacional”, mas que tem somente interesses financeiros e particulares e não normas para garantir as diretrizes do Jiu Jitsu criado pelos brasileiros.

O Sr. atualmente passa mais da metade do ano fora do Brasil. Conte-nos um pouco.
FB: Eu tenho feito inúmeros seminários na França, Bélgica, Alemanha, Israel, Tahiti e outros países. Tive vários convites para abrir academias com o nome Behring. Mas é justamente aí que entra o trabalho institucional. O que eu tenho feito é divulgar a arte Jiu Jitsu. Obviamente meu nome fica em destaque, mas eu não me aproveito disso para ganhar mais. Seria muito fácil nomear qualquer faixa preta e o deixar dando aulas usando o nome Behring, mas eu zelo por isso e não compactuo com essa abordagem.  Existem hoje pouquíssimos professores estrangeiros que foram graduados por mim e que tiveram que passar por um longo período de avaliação. E se não seguem a estrutura pedagógica e minha linha de ensino, eu não autorizo a usar meu nome.
Não deixo que qualquer um use meu nome, mas abro meus conhecimentos para todas as “bandeiras”. A forma de encarar o Jiu Jitsu de maneira particular resulta numa decepção que tive num seminário que fui dar na Dinamarca, onde alguns presentes me disseram que muitos praticantes não puderam comparecer, pois o “professor responsável” não autorizara, por eu não ser da mesma academia deles. Minha intenção é melhorar o nível do Jiu Jitsu, seja ele da escola que for.
Houve uma vez onde eu daria um seminário em Paris e no mesmo dia o Minotauro também ia se apresentar. Ele, apesar de ser muito mais novo do que eu, é um nome de destaque e eu fiz questão de orientar a todos que comparecessem à apresentação do Minotauro. Alguns optaram por não ir e eu acabei dando o seminário, mas todos estavam cientes.
Outro exemplo foi outra vez que estive em Porto Rico e uma semana depois, meu amigo, Mestre Francisco Mansur iria também dar um seminário. Eu exigi que todos meus alunos fossem! Aliás, se dependesse do organizador do seminário dele, iriam poucas pessoas. Felizmente, todos meus alunos foram e eu fiz questão de deixar um bilhete para ele mandando um abraço.

O seu site é quase todo em inglês. Por quê?
FB: Meu trabalho hoje é voltado para o mercado exterior no sentido de divulgar o Jiu Jitsu como instituição, como eu já disse. A idéia é ampliar a expansão da arte sem essa questão de querer defender somente a bandeira da sua academia. E eu vou mais distante, pois além de dar aulas para qualquer praticante, independente de sua academia, dou seminários também para academias de Tae Kwon Do, Kung Fu, Judô, Karate e outras. Inclusive eu tenho dado muitos seminários para o pessoal do Okynawa Kempo Karatê, pois suas regras abordam a parte de luta no solo. Alguns me criticaram, mas essa é uma maneira de mostrar para todos o valor do Jiu Jitsu e com isso, conseqüentemente atrair mais praticantes. A minha bandeira é o Jiu Jitsu! Eu quero contribuir para melhorar a qualidade geral do Jiu Jitsu.
Alguns faixas pretas meus tem me alertado que dando esses seminários em outros países e em outras academias eu estaria “alimentando o bandido” e depois eles viriam enfrentar os meus alunos usando essas técnicas. Eu disse que isso seria excelente, pois forçaria a manter sempre nosso nível em constante evolução.
Esses professores associados que eu tenho hoje fora do Brasil são fruto do trabalho que tenho feito representando, acima de tudo, o Jiu Jitsu e após atingirem um determinado patamar, me representam e dão amplitude a esse trabalho. Os meus representantes fazem a representação nominal usando meu nome, com a exigência única que participem dos seminários que faço periodicamente. A idéia é manter o padrão e a metodologia que eu aplico.

Alguma mensagem final?
FB: Todo esse trabalho que eu faço é contribuir para o cenário atual do Jiu Jitsu. Se eu conseguir melhorar a visão de poucas pessoas, eu já me sinto satisfeito. Peço a todos que estão se formando professores que tenham responsabilidade e compromisso, pois as pessoas que irão procurar esses professores acreditam que eles são capacitados ensinar o Jiu Jitsu.

Fabio Quio Takao – pesquisador ds história do Vale Tudo / MMA
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www.brasilcombate.com.br

 

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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Dissecando a vida de Romeu Bertho, o discípulo de George Gracie (entrevista especial)

Tags:, - Guga Noblat às 13:25:05

Por Fábio Quio Takao, pesquisador e colaborador do blog:

Desde 1959 está em atividade a primeira academia de Jiu Jitsu do interior de São Paulo, a academia de Romeu Bertho. Nascido em 1937 praticante de Arte Suave desde os 18 anos, Mestre Romeu Bertho é um típico representante da velha guarda do Jiu Jitsu. Extremamente amável e educado, físico enxuto e leve, iniciou-se nas artes marciais através do Judô que mais tarde trocou pelo Jiu Jitsu.

Romeu foi provavelmente um dos mais fiéis alunos de George Gracie, demonstrando isso através de fotos do mestre espalhadas pela academia. O experiente mestre orgulha-se de ter feito grandes competidores e professores ao longo da carreira, mantendo ainda hoje seus alunos em diversos campeonatos.
 
Testemunha viva da época onde o “desafio Gracie“ era a tônica de expansão do Jiu Jitsu, tendo ele mesmo feito várias lutas de Vale-Tudo para provar a superioridade da arte criada pela família Gracie, Romeu nos concede essa reveladora entrevista:

ROMEU BERTHO (arquivo pessoal)

ROMEU BERTHO (arquivo pessoal)

Quando se deu seu primeiro contato com o Jiu Jitsu?
ROMEU BERTHO: Em 1957 o George Gracie estava em Jaú-SP e soltou folhetos falando sobre o Jiu Jitsu em toda a região do interior de São Paulo, inclusive em São Carlos-SP, que é a cidade onde eu moro até hoje.
Eu tinha meus 19 anos e já treinava Judô desde os 12 anos no Kaikan, que era uma associação de japoneses da cidade. Nessa época eu andava com a “japonesada” e só conhecia o Jiu Jitsu através de reportagens da antiga revista “O Cruzeiro“.
Ao ver esses folhetos do George, imediatamente fiquei curioso. Por ironia do destino, o George Gracie veio morar um quarteirão acima da minha casa. Ele havia se mudado há poucos dias com o George Filho, uma filha e a Sra. Lina, sua esposa. Entrei e me deparei com um senhor fora de forma, já meio calvo e usando óculos. (risos). Natural para um homem com 46 anos, mas nada que aparentasse ser um grande lutador.
Perguntei sobre as aulas e voltei após um mês para me matricular e comecei a treinar.

Romeu Bertho demonstrando técnica de defesa pessoal

Romeu Bertho demonstrando técnica de defesa pessoal

Como eram os treinos?
ROMEU BERTHO Ele baseava seus treinos em defesa pessoal. Inclusive as aulas eram individuais e raramente eram em dupla. Percebi logo no início que ele não aprovava que eu ainda mantivesse os treinos de Judô. Parei de freqüentar os treinos de Judô, e após alguns meses tive uma grande surpresa. Ao chegar para pagar a mensalidade, o George me fala: “hoje será sua última mensalidade. “ Fiquei muito surpreso, pois estava pois estava gostando muito dos treinos de Jiu Jitsu. Perguntei a ele se ele não ia mais me ensinar o Jiu Jitsu e resumiu: “ Pelo contrário Romeu, AGORA é que vou começar a te ensinar de verdade, pois você passa a ser meu amigo. “
A partir disso, eu passei a treinar diariamente e inclusive a ser seu auxiliar nas aulas dos outros alunos. Além disso, o George adorava me testar com os alunos mais fortes.

Como era a graduação na época?
ROMEU BERTHO: Não havia sistema de cores de faixa como a atual. Todos usavam faixa branca e os mestres usavam uma faixa azul escura para diferenciar. Em várias fotos que tenho do Hélio Gracie, ele está de faixa azul e até mesmo de faixa branca. O Jiu Jitsu dessa época era voltado para defesa pessoal e principalmente aos desafios. A conotação esportiva veio muito mais tarde e foi a federação que organizou as graduações como são conhecidas hoje.

Romeu Bertho (esquerda) e George Gracie - 1959

Romeu Bertho (esquerda) e George Gracie - 1959

Quando foi que o George Gracie autorizou você a ensinar o Jiu Jitsu?
ROMEU BERTHO: Por volta de 1958, o George vai morar em Araraquara, que é 40Km de São Carlos e passa então a dar aulas simultaneamente nas duas cidades. Em 1959 ele vai para Catanduva e me chama para ter uma conversa. “Ele me disse: “Romeu, você agora será o responsável pelas aulas em São Carlos, mas ainda manteremos contato constante”. A partir desse ano, eu passei então a ser professor e responsável pela 1ª academia de Jiu Jitsu Gracie do interior de São Paulo.
 
Como foram seus primeiros desafios de vale-tudo?
ROMEU BERTHO A principal forma dos Gracie provarem a superioridade técnica do Jiu Jitsu era desafiar praticantes de outras artes marciais e os valentões da cidade, o que veio a se tornar uma marca registrada da família. George Gracie não fugia à regra. Devido a sua idade, não fazia desafios há muito tempo, mas agora como eu era seu novo discípulo, a tradição era retomada. Assim que chegou a Catanduva em 1963, George lança o desafio e somente depois de conseguir um adversário, me comunica a notícia: “Romeu, arrumei uma luta para você“. Apesar da minha surpresa, ele afirma: “Não se preocupe“.
Assim que cheguei a Catanduva é que tive noção do tamanho do desafio. Havia faixas na cidade toda e cartazes anunciado três lutas preliminares e a minha como principal. O evento aconteceu numa quadra e teve lotação esgotada. A luta seria sem kimono.


 
Como foi essa luta?
ROMEU BERTHO :A expectativa era a mesma de sempre. Como um lutador de 65Kg poderia vencer o Constantino, um estivador que carregava 400 sacos de café por dia e pesava 97kg? Apesar dessa diferença a luta foi muito rápida. Levei a luta para o chão e apliquei um estrangulamento fazendo-o ficar roxo e bater.

Houve mais desafios?
ROMEU BERTHO: Sim. O George que já tinha como objetivo viajar para divulgar a arte e tinha como principal cartão de visita os desafios onde eu lutava.  Fiz lutas também em Votuporanga e Barretos com adversários que não me recordo os nomes, mas o desfecho das lutas era sempre o mesmo: finalização rápida.
Houve uma luta em Novo Horizonte, onde ganhei um homem muito forte que era padeiro e praticava luta livre. Há poucos anos atrás, num campeonato paulista de Jiu Jitsu, um senhor me agarra por trás e em tom cordial me fala: “Se fosse hoje Romeu, a luta seria diferente!“. Fiquei muito feliz por ele ter me reconhecido e demos muitas risadas. Ele se tornou aluno do George e montou uma academia também.

Mesmo morando em cidades diferentes o Sr. continuou sendo aluno do George?
ROMEU BERTHO: Durante todas as viagens do George pelo interior de São Paulo, mantínhamos contato para que eu enfrentasse os desafios. Ele fazia questão de manter o que hoje chamamos de reciclagem. Ao chegar nas cidades onde ele estava, antes dos desafios ele dizia: “Romeu, vou te dar uma aula“.

Quando foi a última vez que o viu?
ROMEU BERTHO: Por volta de 1967 o George estava em Barretos e me chamou para uma conversa. Chegando lá ele me fala que estava voltando para o Rio de Janeiro e queria que eu fosse com ele para poder me aperfeiçoar ainda mais. Meu pai havia morrido e eu cuidava de minha mãe, então não pude ir. Isso nos emocionou muito. A partir disso, perdi o contato com ele.

Após a partida de George, como foi o desenvolvimento de sua academia?
ROMEU BERTHO: Após a ida de George Gracie para o Rio de Janeiro, não havia no interior de São Paulo competições ou outras academias de Jiu Jitsu. Como eu buscava sempre a evolução, passei a competir e pôr meus alunos para competir também nos torneios de Judô. Essa influência do Judô foi muito útil, pois além da parte de quedas, eu sempre adotei as exigências de disciplina e desportividade do Judô, que eram pouco exigidas no Jiu Jitsu, até porque os próprios Gracie não adotavam isso. Quando começaram os primeiros torneios de Jiu Jitsu, sempre consegui bons resultados com os alunos, tendo como destaques meus dois sobrinhos Fernando Zopellari e Lírio Carlos de Campos, ambos com diversos títulos e atualmente também com academias próprias.
Apesar dos desafios serem característica da família Gracie, eu sempre me preocupei com o caráter dos meus alunos, não permitindo jamais que eles se envolvessem em brigas fora da academia, chegando mesmo a expulsar alguns alunos após saber que os mesmos haviam usado o Jiu Jitsu contra pessoas mais fracas de forma covarde.

E sobre a luta de George Gracie contra Pedro Hemetério?
ROMEU BERTHO: O George passou também pelo nordeste antes de viajar pelo estado de São Paulo. Nessa época, Pedro Hemetério já tinha uma academia na cidade e ficou sabendo que George estava desafiando a todos na cidade. Ao saber dos desafios, Pedro embaraçado pela situação, entra em contato com Hélio Gracie e conta sobre os desafios. Hélio Gracie autoriza Pedro Hemetério a aceitar o desafio. O confronto ocorreu em dezembro de 1952. Os dois mestres se enfrentaram de Kimono e Pedro venceu aplicando um estrangulamento aos 26 minutos. 
 

Romeu Bertho demonstrando técnica de defesa pessoal

Romeu Bertho demonstrando técnica de defesa pessoal

O George teve um desentendimento com o Hélio. O que ele comentava sobre os irmãos?
O George nunca me falou mal dos irmãos, pelo contrário, só mencionava algo quando era para elogiar. George entre os irmãos foi o que mais viajou pelo Brasil. Mas mesmo de longe, sempre acompanhou os desafios feitos pela família que ficara no Rio de Janeiro. Quando o Carlson empatou com o Ivan Gomes em 1963, o George comentou comigo que achava estranho o Carlson não ter ganhado a luta, pois isso só seria possível se o Ivan soubesse algo de Jiu Jitsu. Isso veio a se confirmar mais tarde, pois Ivan Gomes havia tido aulas com um aluno do próprio George Gracie.

O Sr. conheceu os outros irmãos Gracie?
ROMEU BERTHO: Há uns 10 anos atrás houve uma confraternização organizada em Jaú, e o Hélio Gracie veio junto com o Rorion. Como eu também havia sido convidado, só então tive a oportunidade de conhecê-lo.

Fabio Quio Takao – pesquisador ds história do Vale Tudo / MMA
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