Terra Magazine

quarta-feira, 9 de março de 2011

Anatomia no Jiu-Jítsu e MMA

Tags: - Guga Noblat às 14:49:48

 

Por Leandro Paiva, colaborador especial do blog e autor do livro Pronto Pra Guerra:

Para um trabalho bem planejado de preparação física conseguir suprir eficientemente as necessidades quanto à preparação técnica (de fato, a parte mais importante para lutadores), antes de qualquer coisa devemos selecionar os exercícios que serão utilizados.

Para isso, o princípio da especificidade deve ser respeitado como um dos principais critérios desta seleção. Afinal, será que lutadores utilizam os mesmos músculos e do mesmo modo que, por exemplo, jogadores de futebol solicitam em seus movimentos? Claro que não.

Assim, apesar de todos os avanços científicos nos meios e métodos utilizados com atletas de modalidades de combate, conceitos básicos como a observação das técnicas em referência à anatomia do movimento às vezes são negligenciados.

Bem devagar, aos poucos, estamos trabalhando em um projeto aprofundado cujo objetivo é trazer luz baseados em conceitos de anatomia aplicados às técnicas de lutas. De toda sorte, a previsão deste lançamento - em livro - será somente para 2012 ou 2013.

No entanto, não custa tentarmos resumir alguns pontos-chave para aplicação de conceitos de anatomia do movimento no Jiu-Jítsu e MMA, em especial sobre os grupos musculares associados às principais técnicas. Para facilitar o entendimento, sugerimos que observem os músculos ilustrados na figura que acompanha este artigo.

Lembramos que nossa análise será sucinta, pelo fato de que, se considerarmos as variações de técnicas e estilo de cada lutador e o fato de que, em muitos golpes, cada segmento corporal realiza movimentos diferentes, a probabilidade de combinações pode ser infinita.

Além disso, em algumas técnicas, existem mais de um músculo primário sendo solicitados; entretanto, para abordagem mais generalizada, nos atemos propositadamente somente aos músculos principais. Desse modo, apesar de se estabelecer que todos os grandes grupos musculares – tórax, costas, coxas e pernas, etc. – devam ser treinados, pois são exigidos durante os combates, procuramos esclarecer quais são as regiões mais solicitadas e, eventualmente, os tipos de ações musculares características dos golpes nessas modalidades.

Jiu-Jítsu

Nos momentos iniciais de um combate o que ocorre, de modo geral, é a possibilidade de o atleta projetar o oponente ou puxá-lo para sua guarda.

Principais músculos solicitados (técnicas de projeção) - Membros inferiores (músculos da cintura pélvica, coxa, perna e pé); região lombar e abdominal (solicitação ligeiramente inferior comparada à região lombar); região das costas (grande dorsal) e do tórax (peitoral maior).

Embora realizem algum trabalho de força máxima ou potência, de modo geral, as musculaturas do antebraço, região lombar, abdominal e pescoço, realizam trabalho de resistência muscular, porém com característica estática ou isométrica (Exemplo: Quando o atleta faz “pegada” no quimono do adversário, ele segura de 1 a 5 segundos – força isométrica – e solta, repetindo constantemente esse procedimento – resistência muscular).

Ainda, embora realizem algumas ações isométricas, as constantes mudanças de direção impõem maior demanda na resistência muscular para as musculaturas anteriores e posteriores do tronco e braços (grande dorsal, peitorais, bíceps e tríceps).

Salienta-se que grande parte dos golpes de projeção envolve rotação e, especialmente, a região lombar e abdominal sofrem grande demanda da capacidade de resistência e aplicação de força rotacional (aplicação de força em movimentos de rotação do corpo no próprio eixo, ou seja, entre a porção superior e inferior).

Principais músculos solicitados (”puxar para guarda”) - ações de potência (para o salto de puxada) e/ou resistência muscular de baixa intensidade (nos deslocamentos no tatame) e força isométrica ou estática dos membros inferiores (ao comprimir as pernas ao redor do corpo do adversário – “fechar a guarda”). Além disso, ações de potência da região lombar e abdominal (para se defender de tentativas de projeção por parte do adversário).

Ainda, ações de potência da musculatura das costas e do tórax (respectivamente, no movimento de puxada para a guarda fechada e quando empurra o adversário para evitar ser projetado); ações de força máxima do bíceps (braquial e braquiorradial) e tríceps e, por fim, ações isométricas e de resistência muscular do antebraço, região lombar, abdominal e pescoço.

Principais músculos solicitados (técnicas de solo) - No solo, alternam-se constantemente ações dinâmicas e isométricas (para estabilização de alguma posição). Quanto às ações dinâmicas, há necessidade de força máxima e/ou potência para executar, por exemplo, um golpe de “raspagem”, passagem de guarda ou finalização.

Quando o atleta está por baixo (“fazendo guarda”) observa-se solicitação da região abdominal e lombar nas tentativas de raspagem ou defesa da guarda e dos adutores dos quadris ou “virilha” para manter o adversário na sua guarda (força isométrica). Ainda, das costas e tórax para puxar e empurrar na tentativa de concretizar algum golpe, do pescoço/trapézio e antebraços, respectivamente, para defesa de finalizações e “pegada”. Além disso, observa-se, frequentemente, a solicitação dos membros inferiores na tentativa de “raspar” ou inverter o adversário e também de “repor a guarda”.

Por cima, o atleta que, por exemplo, tenta passar a “guarda alta”, “toreando”, solicita os membros inferiores na tentativa de passar a guarda do adversário, as costas e o peitoral maior para manter sob controle as pernas do adversário e executar a passagem. Ainda, é solicitada a região lombar e abdominal para manutenção do equilíbrio e postura, evitando as tentativas de “raspagem” ou inversão. Além disso, é observada a solicitação do pescoço/trapézio para “fazer postura” para passagem de guarda e na defesa das tentativas de finalização do adversário por estrangulamento. Os antebraços são solicitados para a execução da “pegada”, envolvendo ações que caracterizam o uso da força isométrica, dinâmica e de resistência muscular.

Salienta-se que grande parte das posições de raspagem, reposição de guarda, passagem de guarda, finalização, etc. envolve rotação, solicitando principalmente a região lombar, abdominal, deltóides e membros inferiores. Desse modo, o trabalho de preparo físico e técnico para aplicação e resistência às forças rotacionais é de suma importância para atletas dessa modalidade.

Vale-Tudo ou MMA

Nessa modalidade, são válidas ações técnico-táticas de três estilos de modalidades de combate – luta de projeção, de solo e de contato. Assim, por já tratarmos sobre as ações e regiões musculares mais solicitadas nos dois primeiros estilos, vamos concentrar nossas explicações sobre o terceiro estilo.

Em referência à utilização de golpes traumáticos, os membros inferiores tendem a ter ações de baixa intensidade (deslocamentos no ringue) e de potência: (a) para antecipação, ou seja, execução de golpes antes que haja ação do adversário; (b) nos golpes realizados especificamente pelos membros inferiores – chutes; (c) pela transferência de energia cinética, aumentando a força e velocidade nos golpes com solicitação de membros superiores – socos.

Quando um atleta desfere um chute frontal, “canelada”, joelhada, etc. a perna de ataque perde contato com o solo e uma única perna constitui a base de apoio, implicando manutenção do equilíbrio em apenas um pé. Além disso, quando o atleta realiza uma combinação sequencial de golpes (Ex: “canelada” seguido de socos) e a perna de ataque não retorna ao contato com o solo, é preciso que a musculatura dessa região seja capaz de manter a estabilidade, enquanto o restante dos segmentos efetua ação de grande potência.

Quando o atleta realiza um chute com extensão do joelho (Ex: chute frontal, canelada, etc.), os músculos mais solicitados são os extensores do joelho e flexores do quadril da perna de ataque (musculatura anterior da coxa – quadríceps femoral, iliopsoas, sartório e tensor da fáscia lata), além da região lombar e abdominal (solicitados para manutenção do equilíbrio e postura).

Quando o golpe é realizado somente com flexão do quadril (Ex: joelhada), além da região lombar e abdominal, os músculos mais solicitados são os flexores do quadril (musculatura anterior da coxa – reto femoral, iliopsoas, sartório e tensor da fáscia lata). Na perna que permanece apoiada sobre o solo, os músculos mais solicitados são os extensores do quadril e do joelho (glúteos e musculatura posterior e anterior da coxa), além dos flexores plantares (“panturrilha” - gastrocnêmio e sóleo).

Quanto aos golpes traumáticos com solicitação de membros superiores, observamos a necessidade de grande resistência muscular e potência, especialmente dos deltóides, tríceps e peitoral maior (socos em linha reta – Jab e Direto); bíceps (braquial e braquiorradial), antebraços, deltóides e peitoral maior (socos em ângulo e golpes com antebraço – gancho, upper, cruzado e cotovelada), além de resistência muscular de característica isométrica nos deltóides para manter a guarda alta (braços elevados com as mãos próximas do tórax e da cabeça).

Os músculos abdominais e lombares, além de serem solicitados para manutenção do equilíbrio e postura, transferem a potência iniciada pelos membros inferiores – energia cinética ou do movimento – para as costas e braços, aumentando a força e velocidade dos golpes.

Por fim, os movimentos de esquiva (pêndulo, flexão e extensão do tronco, flexão do tronco lateralmente, etc.) solicitam principalmente a região lombar, abdominal e o grande dorsal. Além deles, os membros inferiores também contribuem, contudo sua solicitação é ligeiramente inferior.

Conclusão

Baseados nessas informações iniciais (resumidas) para reflexão, o(s) treinador(es) em conjunto com o preparador físico do atleta pode auxiliar a direcionar a escolha dos exercícios versados na especificidade e, ir mais longe, ajustando às características individuais do lutador (individualidade biológica) para desse modo conseguir atingir seus objetivos o mais próximo possível da realidade da luta e do atleta em questão.

Referência: Paiva, L. Pronto Pra Guerra: Preparação Física Específica para Luta e Superação. Segunda Edição. Amazonas: OMP Editora, 2010.

Leandro Paiva é professor de educação física e autor do livro Pronto Pra Guerra.  Já auxiliou na preparação de atletas de ponta como Ricardo Arona e Bibiano Fernandes. Ele colabora com este blog toda semana. Leia outros textos dele aqui. Para saber mais sobre o autor e o livro entre emhttp://www.prontopraguerra.com.br/ e conheça também o Pronto pra Guerra TV.

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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Lutadores possuem estrutura óssea mais forte?

Tags: - Guga Noblat às 14:32:35

George Saint Pierre (à esquerda - calção preto) é dominante em sua categoria no UFC. Ele é graduado com a faixa preta de Karatê.

Por Leandro Paiva, colaborador especial do blog e autor do livro Pronto Pra Guerra:

Em estudo que acaba de ser publicado com grande número de indivíduos avaliados, os cientistas desejavam descobrir se haveria influência da prática regular de Arte Marcial sobre o esqueleto dos lutadores comparando-os a indivíduos não adeptos a essas práticas.

Para tal, os pesquisadores selecionaram um grupo com 226 homens (idade média: 25,64 anos), que praticavam em média a 61,9 meses, com frequência média de 3 vezes por semana. Esse grupo foi comparado com um grupo controle (não praticantes) de 502 indivíduos.

O estado esquelético foi avaliado por ultra-sonografia quantitativa, em falanges (”partes dos dedos”) da mão.

Foi verificado que até os 18 anos de idade, não houveram diferenças relevantes entre os lutadores e os indivíduos do grupo controle. No entanto, verificou-se que até os 35 anos de idade, haviam diferenças significativas.

Os resultados indicaram que maior tempo de prática, frequência e idade de iniciação na Arte Marcial influenciava positivamente o estado esquelético.

Os pesquisadores concluíram baseados nesses achados que havia influência positiva da prática sobre o estado do esqueleto dos lutadores, com benefícios mais importantes verificados em indivíduos adultos (com mais de 18 anos de idade).

Referência: Bogna Drozdzowska; Ulrich Münzer; Piotr Adamczyk; Wojciech Pluskiewicz. Skeletal Status Assessed by Quantitative Ultrasound at the Hand Phalanges in Karate Training Males. Ultrasound in Medicine and Biology, v.37, n.2, p.214-219, 2011.

Leandro Paiva é professor de educação física e autor do livro Pronto Pra Guerra.  Já auxiliou na preparação de atletas de ponta como Ricardo Arona e Bibiano Fernandes. Ele colabora com este blog toda semana. Leia outros textos dele aqui. Para saber mais sobre o autor e o livro entre emhttp://www.prontopraguerra.com.br/ e conheça também o Pronto pra Guerra TV.

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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Lutadores campeões produzem mais testosterona?

Tags: - Guga Noblat às 13:54:09

Por Leandro Paiva, colaborador especial do blog e autor do livro Pronto Pra Guerra:

Em estudo recente realizado com atletas de elite de Luta Olímpica, os pesquisadores baseados nos resultados, sugeriram que havia forte relação entre o sucesso competitivo e aspectos hormonais nas lutas.

Atentaram para fortes indícios de que os lutadores campeões tiveram um aumento maior nos níveis de testosterona comparados aos perdedores, embora o mecanismo fisiológico ainda seja desconhecido.

O estudo foi realizado com 12 lutadores do sexo masculino em um período de 2 dias. Os participantes tiveram um registro total de 34 vitórias, 31 derrotas e 4 empates. Observou-se que, de fato, houve aumento de testosterona entre os vencedores e perdedores, mas o aumento foi significativo apenas para os vencedores (Vencedores: pré = 16,4 ± 1,2, pós = 23,2 ± 1,5; Perdedores, pré = 14,8 ± 1,0, pós = 19,4 ± 1,2).

Resumidamente, os resultados sugerem que os lutadores campeões utilizam um mecanismo diferente de regulamentação para respostas agudas aos combates. Além disso, os pesquisadores concluíram afirmando que esses dados suportam a teoria biossocial na qual comporta a hipótese de desafio desde os homens das cavernas, desenvolvendo mecanismos fisiológicos de prontidão e alerta para a “guerra iminente”.

Referência: Fry, Andrew; Schilling, Brian; Fleck, Steven; Kraemer, William. Relationships Between Competitive Wrestling Success and Neuroendocrine Responses. Journal of Strength & Conditioning Research, v.25, n.1, p.40-45, 2011.

Leandro Paiva é professor de educação física e autor do livro Pronto Pra Guerra.  Já auxiliou na preparação de atletas de ponta como Ricardo Arona e Bibiano Fernandes. Ele colabora com este blog toda semana. Leia outros textos dele aqui. Para saber mais sobre o autor e o livro entre em http://www.prontopraguerra.com.br/ e conheça também o Pronto pra Guerra TV.

 

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Preparação Psicológica de lutadores - Mentalização (visualização)

Tags: - Guga Noblat às 14:57:41

Michael Bisping vs Denis Kang (Foto UFC)

Michael Bisping vs Denis Kang (Foto UFC)

Por Leandro Paiva, colaborador especial do blog e autor do livro Pronto Pra Guerra:

A mentalização é conhecida por diversos termos, dentre os principais: treinamento mental, imaginação guiada, visualização e prática mental. É um meio de simulação que pode ser utilizada para reduzir ansiedade, estabelecer confiança e aumentar a concentração. Desenvolve a plasticidade humana que permite ajustes diante de situações novas e a possibilidade de diferentes planos de solução diante de uma circunstância.

Numa luta de Jiu-Jítsu, Submission, Grappling e Vale-Tudo, as decisões são tomadas em frações de segundo e a obsessão seguida de lerdeza de raciocínio pode custar caro ao atleta. Muitas vezes para ganhar um combate, o lutador, além de ser mais técnico e forte, deve ser também mais inteligente e fazer uso da agilidade mental para descobrir os erros de seu oponente e utilizar isto a seu favor antes do término da luta.

Alguns atletas campeões de alto nível, como Bibiano Fernandes e Ronaldo Jacaré, na situação que precede alguns treinos e principalmente na competição, costumam imaginar os movimentos que executarão, repetindo algumas vezes essa representação mental, chegando até em alguns casos a dividi-los em partes, dentro de uma sequência correta tecnicamente.

Esses atletas, mentalmente, produzem estímulos e respostas. A imagem é um estímulo gerado que, em contrapartida, originará uma resposta positiva em algum determinado comportamento que ele deseja alterar.

Não existem referências ainda de estudos em curso ou publicados sobre os efeitos da visualização no MMA, mas há estudos que detalham o uso de mentalização de imagens em diversas Lutas, Artes Marciais e Modalidades de Combate. Neles, os autores chegaram a diferentes conclusões, principalmente pelo fato de utilizarem métodos distintos. Contudo, podem ser encarados como ensaios importantes para utilização com atletas de MMA.

Pesquisas

No estudo realizado por Kuan e Roy (2007), o objetivo principal foi descobrir se a visualização poderia auxiliar na dureza mental de atletas de Kung Fu (Wushu). Dureza mental é a capacidade de o lutador resistir e persistir às situações adversas, físicas e psicológicas. Os resultados indicaram que a mentalização de imagens era a chave para o sucesso dos atletas, apesar de não ter sido o único método de preparação psicológica utilizado. Outro método relevante que contribuiu muito foi a determinação e definição de objetivos e metas.

Em outro estudo (Fontani et al., 2007) foi observado que a visualização mental prévia poderia ajudar a incrementar algumas qualidades físicas relevantes para o lutador. Nele, conduzido com 30 atletas de elite de Karatê, observou-se que a visualização de um golpe antes de executá-lo influenciava positivamente na força e potência muscular desse golpe.

Weinberg, Seabourne e Jackson (1981) observaram correlação entre visualização e ansiedade pré-competitiva. Após aplicação de testes iniciais, no final de seis semanas os lutadores avaliados realizaram testes de habilidades, incluindo sparring (simulação de combate real). Foi observado que o grupo que estava trabalhando e aprendendo habilidades de visualização teve desempenho melhor do que os outros grupos pesquisados.

Davenport (2006) entrevistou três kickboxers com experiências variadas para descobrir quais habilidades eles consideravam benéficas para o sucesso. A visualização foi apontada como um componente chave na rotina. Segundo um indivíduo pesquisado: “Eu costumava me imaginar lutando contra os adversários e pensava: ‘no momento em que ele tentar colocar esse golpe em mim eu vou fazer isso…’, eu realmente lutava com eles em minha mente. ”

Highlen e Bennett (1979) analisaram 40 lutadores de elite do Canadá. Segundo seu estudo, os lutadores só poderiam utilizar visualização de imagens em grau moderado. Eles explicaram que na Luta Olímpica, por ser uma modalidade aberta (com possibilidade de ações “imprevisíveis” do adversário), é tarefa muito difícil utilizar a visualização. No entanto, vale salientar que esse estudo é antigo, realizado antes de haver qualquer forma padronizada de mensurar os efeitos da mentalização de imagens.

Já Barrow et al. (2007), utilizaram uma Escala de Imaginação no Esporte. Concluíram que os atletas de elite utilizam a visualização para aprender novas habilidades e controlar o estresse com muito sucesso. Afirmaram que, nas lutas, apesar de serem modalidades abertas, a mentalização de imagens permite-lhes a oportunidade de aprender habilidades motoras associadas à técnica.

Vantagens

1) Aumenta a precisão e com isso a velocidade de execução de um movimento ao ser posto em prática;

2) Sua utilização torna-se muito importante nas pausas decorrentes de lesões, para manter a noção do movimento;

3) Em situações pré-competitivas e competitivas, pode ajudar o atleta a ir menos sobrecarregado mentalmente para a competição, pois já repassou a seqüência diversas vezes, de forma imaginária;

4) Nas modalidades de Jiu-Jítsu, Submission, Grappling e Vale-Tudo, pode minimizar o medo, pois por meio da imaginação intensiva de um movimento, serão reconhecidos os elementos mais inseguros deste movimento e com isto poderá ser melhor efetivado.

Desvantagens

A. É mais adequada a utilização em atletas com mais de 12 anos de idade;

B. Em função da possibilidade de fadiga neuromuscular, só deve ser utilizada de forma limitada (no máximo 3 minutos por unidade de treinamento);

C. Por falta de controle adequado, sob aplicação real, se algum movimento técnico errôneo for executado de forma exclusiva ou muito longa, pode ser desenvolvido e fixado na mente.

Conclusão

Vale ressaltar que a mentalização ou visualização de imagens (Treinamento Mental) não substitui a prática técnica e por si só não garante o sucesso da performance. O treinamento prático, a princípio, é superior ao Treinamento Mental, mas a combinação dos dois conduz a melhores resultados.

Leandro Paiva é professor de educação física e autor do livro Pronto Pra Guerra.  Já auxiliou na preparação de atletas de ponta como Ricardo Arona e Bibiano Fernandes. Ele colabora com este blog toda semana. Leia outros textos dele aqui. Para saber mais sobre o autor e o livro entre em http://www.prontopraguerra.com.br/ e conheça também o Pronto pra Guerra TV.

 

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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A Ciência das Artes Marciais: Ricardo Arona

Tags: - Guga Noblat às 01:30:09



Por Leandro Paiva, colaborador especial do blog e autor do livro Pronto Pra Guerra:

Todos os lutadores possuem recursos técnicos que os distinguem dentre outros competidores. Ricardo Arona, além de seu repertório de projeções, possui o chute baixo com a parte anterior da perna - “Canelada” - como arma imprescindível em seu repertório.

Até aí tudo normal, pois outros lutadores de MMA também costumam utilizar esse golpe. No entanto, diferente de outros atletas, quando dispara sua canelada no tempo certo, o adversário literalmente desaba. Até poderia ser de dor, mas geralmente é pelo desequilíbrio. O fato é que não é comum no MMA derrubar o adversário somente com um chute (a não ser nocauteado, vide Mirko “Cro Cop”).

Neste vídeo contra Alistair Overeem, aproximadamente aos 4min15s de luta é um exemplo clássico.

Outro exemplo referencial, foi na sua primeira luta contra o ex-rival e ex-desafeto Wanderlei Silva (confira no vídeo aqui).

O que ocorre e como ele consegue esse feito? A ciência explica. Para facilitar, primeiro assistam o este vídeo, no qual consta a base de nossa explicação que virá logo após.

O golpe no vídeo é denominado no Savate (Boxe Francês) de fouetté bas (”Back Leg Sweep” em Inglês). Traduzindo para o Português, seria algo como “vassourada” ou “varredura”. Os princípios da física para esse golpe e na forma que Arona executa são bem parecidos. Contudo, tecnicamente ele eleva a condição desse tradicional golpe do Savate para outro patamar em função de sua condição física.

No savate o atleta domina um dos braços do adversário e, em seguida, desfere o chute que atinge suas duas pernas e o derruba. Arona faz o mesmo só que sem segurar o adversário e atingindo apenas uma das pernas do oponente para derrubá-lo.

Como citado, o princípio baseado na física é similar, ou seja, deslocar o centro de gravidade de sua base. Vale ressaltar que, no corpo humano, é praticamente impossível localizar com exatidão o centro de gravidade, porque ele é deslocado conforme o atleta muda sua posição corporal.

Entretanto, em modalidades de combate, aparentemente, no momento inicial de um combate (atleta em pé, com cotovelos estendidos ao longo do corpo), dependendo do tipo físico do atleta, o centro de gravidade pode ser localizado na região da cicatriz umbilical (“umbigo”) ou ligeiramente acima dele. Nas mulheres, abaixo da cicatriz umbilical, mais próximo dos quadris (a posição precisa do centro de gravidade depende das proporções do indivíduo e tem a magnitude igual ao seu peso).

Centro de Gravidade (C.G) na posição anatômica

Nesse contexto, tecnicamente, seria mais fácil derrubar Overeem que Wanderlei. Lutadores de baixa estatura mantêm seus centros de gravidade perto de suas bases de sustentação (membros inferiores), favorecendo o equilíbrio. Overeem mede 1,95 enquanto Wanderlei mede 1,80 metro.

 
Resolvida a primeira parte sobre equilíbrio e desequilíbrio vamos para o cerne da questão: como Arona consegue derrubar sem ter a necessidade de dominar tanto o oponente como na técnica aplicada no Savate?

Pelo fato de aplicar velocidade na técnica, mas com quantidade de força no chute bem superior à necessária no Savate, conseguindo deslocar “na marra” o centro de gravidade das bases do adversário. Vale relembrar que Força = massa x aceleração e Aceleração = Velocidade/Tempo. Assim, com sua grande aceleração empregada dificulta o bloqueio do adversário ao golpe e, com a força gerada, desloca-o de suas bases de sustentação simultaneamente. Desse modo, podemos afirmar que, além de forte, Arona também é extremamente potente, afinal: Potência = Força x Velocidade.

Se não contasse com sua notável condição física e tivesse de dominar um dos braços do adversário executando da mesma forma que a técnica é empregada no Savate, pode ser que não surtisse o desequilíbrio por dois motivos:

1) Daria tempo para o adversário interpretar a técnica, conseguindo bloquear o chute

ou

2) A dinâmica no MMA é diferente do Savate, oferecendo possibilidade técnica de clinche e prosseguimento da luta, gerando ineficácia da técnica ao encurtar a distância.

Leandro Paiva é professor de educação física e autor do livro Pronto Pra Guerra.  Já auxiliou na preparação de atletas de ponta como Ricardo Arona e Bibiano Fernandes. Ele colabora com este blog toda semana. Leia outros textos dele aqui. Para saber mais sobre o autor e o livro entre em http://www.prontopraguerra.com.br/ e conheça também o Pronto pra Guerra TV.

 

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sábado, 11 de setembro de 2010

Preparação Física para Jiu-Jitsu, Judô, Luta Olímpica, Submission e Grappling

Tags: - Guga Noblat às 17:21:00

Qual é a semelhança existente entre exercícios com argola de ginastas olimpicos e lutadores? Aparentemente nenhuma. No entanto, em ambas atividades é necessária força de preensão manual (pegada) em situação de desequilíbrio ou instabilidade. Assim, dentre outros exercícios possíveis, pode ser útil se acrescentar às rotinas de treinamento exercícios de flexão de cotovelos utilizando argolas em vez de barra. No material audiovisual que segue podemos observar que a quantidade de variações de exercícios utilizando este equipamento é extensa. Aconselhamos fortemente a incorporá-los na rotina de preparação física dos atletas de lutas, artes marciais e modalidades esportivas de combate.

Veja aqui o vídeo produzido pelo colaborador especial do blog Leandro Paiva 

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O risco de lesões no MMA

Tags: - Guga Noblat às 15:41:07

Foto UFC

Foto UFC

Por Leandro Paiva, colaborador especial do blog e autor do livro Pronto Pra Guerra:

Não importa se é iniciante, intermediário ou atleta de elite. Infelizmente, no caso de lutas, especialmente no MMA, a principal pergunta a ser respondida não é “se” o atleta vai se lesionar, mas “quando” isso vai ocorrer.

Dentre as principais lesões que podem acometer o lutador de MMA, em diversos estudos foi observado que a laceração ocorre com grande incidência. Laceração é uma lesão com sangramento resultante de corte da pele até o tecido subcutâneo, decorrente de golpe traumático – soco, chute, joelhada, cotovelada, etc.

Na face, geralmente ocorre maior incidência nos lábios e olhos. Nesse contexto, vale ressaltar que golpes com o joelho e cotovelo (“joelhada” e “cotovelada”, respectivamente) podem produzir cortes mais profundos do que socos

Não são raros os casos no MMA em que a luta é interrompida caso haja sangramento de um dos atletas. Caso o sangramento seja excessivo e persistente, o lutador pode até ser declarado perdedor por ser considerado incapaz de prosseguir no combate. Essa medida visa preservar a integridade física dos atletas. Esse foi o motivo alegado pelos juízes na primeira derrota no MMA do lutador russo Fedor Emelianenko.

O juiz, em consenso com o médico do evento, pode interromper o combate caso haja sangramento excessivo se:

(a) Fornecer vantagem desleal para o adversário;

(b) A origem do sangramento for corte profundo, podendo causar danos irreparáveis;

(c) O lutador continua recebendo golpes contundentes pelo adversário no mesmo corte, em todos os rounds.

Cortes profundos são perigosos, pois podem requerer cirurgia plástica, internação hospitalar, antibióticos intravenosos e dreno pendurado no ferimento durante alguns dias.

Para amenizar ou interromper o sangramento, algumas estratégias utilizadas há muitos anos por médicos de boxeadores profissionais devem ser consideradas no MMA. São abordadas em profundidade no livro Pronto Pra Guerra.

Adiante segue material audiovisual contido no Canal Pronto Pra Guerra, ilustrando as temíveis lacerações que ocorrem no Mixed Martial Arts.

Veja o vídeo

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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Crioterapia para lutadores

Tags: - Guga Noblat às 12:27:19

Tatame

Foto Tatame (Rodrigo Minotauro)

Por Leandro Paiva, colaborador especial do blog e autor do livro Pronto Pra Guerra:

Água e gelo. Parece simples, mas especialistas garantem que a crioterapia traz benefícios para lutadores. O termo crioterapia significa “terapia pelo frio”. Qualquer tipo de uso do gelo ou de aplicações com frio cujos objetivos sejam terapêuticos é, assim, crioterapia. Em suma, é a aplicação terapêutica de qualquer substância ao corpo, resultando numa retirada do calor corporal e, por intermédio disso, redução da temperatura tecidual.

Alguns autores afirmam que adicionar ao gelo uma pequena quantidade de sal parece aumentar os efeitos fisiológicos da crioterapia. No livro Pronto Pra Guerra, abordamos o tema em profundidade, somado a outras técnicas bem empregadas para acelerar a recuperação de atletas de elite de modalidades de combate.

Mania entre atletas brasileiros, é comum ver Rodrigo Minotauro e Demian Maia imersos nas águas geladas após fortes sessões de preparação técnico-tática ou física. O preparador físico Rafael Alejarra, asseverou anteriormente em matéria publicada na Revista TATAME: “O benefício mais perseguido da crioterapia é o efeito analgésico que ela propicia, de forma localizada, sem a utilização de agentes farmacológicos”.

A terapia utilizando o frio não cura nenhuma enfermidade; contudo, supostamente, constitui ferramenta valiosa que auxilia no tratamento de várias patologias ortopédicas e neurológicas. Quando aplicada adequadamente, parece reduzir o espasmo muscular que acompanha a hérnia de disco, lombalgias, cervicalgias, sintomatologia dolorosa e problemas articulares.

Na literatura científica, apesar de não haver material vasto sobre o tema confirmando seus resultados e o que tem publicado ser inconclusivo, alega-se que os principais efeitos fisiológicos são: anestesia, redução da dor, redução do espasmo muscular após treino intenso, relaxamento, mobilização precoce, melhora a amplitude de movimento, redução do metabolismo, redução da inflamação, redução do edema, quebra do ciclo dor-espasmo-dor, etc.

Para finalizar este artigo, segue adiante um vídeo no qual o lutador do UFC, Demian Maia, experimentou o recurso antes de uma luta, e, aparentemente, aprovou: “Esse método é excelente. Depois de fazer a imersão, você sente um pouco de frio, mas depois toma um banho quente e sente a musculatura bem relaxada”, alegou.

Veja o vídeo

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Séculos antes do jiu-jitsu brasileiro nascia a luta marajoara

Tags: - Guga Noblat às 01:49:12

Luta Marajoara

Luta Marajoara

 

Por Leandro Paiva, colaborador especial do blog e autor do livro Pronto Pra Guerra:

Bem antes da popularização do Jiu-Jítsu no Brasil, um estilo de luta era bem popular na região norte. Apesar de não ser necessariamente focada na eficiência, está enraizada nos valores sócio-culturais daquela região e também do Brasil.

Desse modo, vale salientar que, possivelmente, a Luta Marajoara surgiu com o próprio caboclo há mais de 300 anos, a partir de suas observações e necessidades. Na ilha contam uma lenda que o caboclo analisou a atitude do búfalo, animal que diante da ameaça iminente de sua liderança em relação ao rebanho, enfrenta o búfalo rival colocando cabeça com cabeça, ficando com as patas no chão e tentando um derrubar o outro emaranhando seus chifres; o que cair é o perdedor. A exemplo do que fizeram os orientais criando estilos de luta baseadas nos movimentos de ataques e defesas dos animais como a serpente, o leopardo, etc.

Trata-se de fato de um combate corpo-a-corpo realizado na argila (ou barro) para reduzir o risco de lesões, no qual o principal objetivo do combate é manter o oponente de costas no chão.

Segundo o pedagogo Márcio Vitelli, um estudioso das tradições da região marajoara, as origens mais prováveis da luta marajoara são:

1.Tribo Aruã, extinta pelas lutas e doenças trazidas pelos primeiros colonizadores que chegaram na região;
2.Influência de escravos africanos;
3.Inspirada na luta de búfalos;
4.Surgiu com os amistosos confrontos entre os vaqueiros ao final de um dia de trabalho.

Hoje existem as lutas marajoara tradicional e desportiva. A tradicional é a praticada nas fazendas da região e a desportiva conta com organismos que regulamentam a prática, defendem as regras e organizam campeonatos, mas não existe graduação.

A luta marajoara, via de regra, acontece sempre nos finais de tarde à beira dos rios, antecedendo o banho ou quando o caboclo sente-se ameaçado na liderança perante o grupo ou em relação à sua fêmea. Atualmente é bastante praticada nas festividades populares dos municípios que compõem o Marajó, como Festividade de São Sebastião, em Cachoeira do Arari, Aniversário da Cidade de Salvaterra, Festival do Tamuatá em Santa Cruz do Arari, Festival do Camarão em Muaná, Aniversário da Cidade de Ponta de Pedras, e em Soure em várias momentos do ano, como nos jogos de verão, no aniversário da cidade e no Marajó Búfalo Fest.

Leandro Paiva é professor de educação física e autor do livro Pronto Pra Guerra.  Já auxiliou na preparação de atletas de ponta como Ricardo Arona e Bibiano Fernandes. Ele colabora com este blog toda semana. Leia outros textos dele aqui. Para saber mais sobre o autor e o livro entre em http://www.prontopraguerra.com.br/ e conheça também o Pronto pra Guerra TV.

 

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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A Ciência dos lutadores de Superelite

Tags: - Guga Noblat às 00:38:45

Por Leandro Paiva, colaborador especial do blog e autor do livro Pronto Pra Guerra:

Há muito tempo que é notória dentre especialistas do Treinamento Desportivo a distinção entre os atletas de elite e outros lutadores de nível iniciante ou intermediário. A principal característica para um atleta ser considerado de elite é a classificação frequentemente “no pódio” entre os três primeiros lugares em competições regionais, nacionais e internacionais.

Atualmente foi incorporada mais uma divisão. Nela, são distinguidos os atletas de elite de um grupo “novo”: os considerados de superelite. São considerados lutadores de superelite os atletas classificados somente em primeiro lugar em competições relevantes e oficiais.

Já se sabe por meio de estudos que os lutadores de superelite possuem características técnico-táticas superiores que os difere dos atletas classificados em segundo e terceiro lugares. Verificou-se que todos os atletas tinham aptidão física elevada, de modo que ter excelente preparo físico está no bojo do alto rendimento. No entanto, somente isso não garantia a presença no lugar mais alto do pódio. Assim, pode ser que exista algo a mais para somar à capacidade técnico-tática: condição psicológica ideal para o alto rendimento.

Partindo da premissa de que o atleta já está no grupo de elite, como conseguir melhorar ainda mais a performance para que ele consiga chegar no topo do esporte e faça parte do seleto grupo dos superelite? As quatro sugestões que seguem não encerram a discussão sobre o tema; contudo, podem auxiliar atletas, técnicos e outros profissionais responsáveis pelo preparo dos lutadores. Vejamos:

Prática deliberada: Treinar os golpes e praticá-los facilita muito quando determinadas condições são cumpridas. Atletas de elite treinam mais do que os iniciantes e intermediários, mas conseguir os melhores resultados exige qualidade, não apenas maior quantidade de horas de prática. Para a prática produzir mais resultados, o lutador deve primeiro ser motivado a participar da tarefa e também estar trabalhando ativamente para melhorar o desempenho. Também é fundamental que receba respostas imediatas e específicas (feedback) sobre seu esforço, baseando-se na premissa de que repete determinada tarefa planejada mais de uma vez para poder verificar a evolução. A prática deliberada exige que você mantenha o foco, monitore e, se necessário, modifique seus comportamentos para melhorar sua habilidade.

Treinamento para o alto rendimento: De modo geral, técnicos (Sensei, Professor ou Mestre) mais graduados tendem a ter níveis mais elevados de conhecimentos específicos da modalidade e planejam sessões práticas com mais cuidado. Costumam ter conhecimento aprofundado das táticas, técnicas e aspectos gerais podendo ajustar o tipo de ensino às necessidades do lutador (e de seu nível de habilidade). Com os atletas de elite, tendem a direcionar a maior parte do tempo discutindo detalhes táticos em vez de rever fundamentos básicos.
Alguns cientistas, após estudar diversos treinadores de atletas de elite e superelite, concluíram que o planejamento meticuloso da prática é uma característica relacionada à expertise e especialização do treinador. Foi constatado que os treinadores de atletas de superelite investiam mais tempo no planejamento e eram mais precisos em suas metas e objetivos para a sessão de treinos livres (Sparrings – MMA; “rola” – Jiu-Jítsu e Submission) do que os treinadores dos atletas classificados em segundo e terceiro lugares.

Acompanhamento multidisciplinar: A formação de um atleta de elite ou superelite exige avaliações sistemáticas e contínuas de todos os requisitos necessários para o alto rendimento. Dentre eles, destacam-se os componentes técnico, tático, físico, psicológico, médico e alimentar.
O MMA abriga dia após dia novos praticantes, mas muitos atletas e academias não estão preparados (estrutura) para a excelência na formação de um atleta de elite. No Brasil, celeiro dos maiores atletas, as dificuldades são compensadas pelas habilidades técnico-táticas e pela mitológica capacidade de persistir e resistir dos brasileiros. Muitos com pouca infraestrutura conseguiram a duras penas entrar para o grupo de elite ou superelite.
Contudo, tudo poderia ser bem mais fácil se contassem com acompanhamento multidisciplinar. Muitos atletas norte-americanos, australianos, canadenses, japoneses e europeus contam com apoio de psicólogo, nutricionista, fisioterapeuta, médico, etc. Com toda certeza esse fato facilitou a ascensão meteórica de muitos estrangeiros no MMA. Diversos atletas de elite dos eventos norte-americanos UFC e Strikeforce, realizam ou já realizaram treinamentos assessorados por cientistas de centros de excelência como o Olympic Training Center e o Instituto Australiano de Esportes. Além desses, temos conhecimento de que instituições militares norte-americanas apóiam incondicionalmente atletas-militares que participam de eventos de MMA. Em todas essas instituições e centros, o atleta é avaliado em cada área. É monitorado e seu planejamento competitivo é modificado dentro de um plano de longo alcance para estar em nível ideal nas datas específicas das competições.

Ambiente de treinamento: Se o lutador viver sob vigilância constante sobre todos os aspectos de sua preparação e vida pessoal – com pressão implacável para ser bem sucedido – pode ser alocado em um ambiente muito estressante rapidamente. Atletas, treinadores e outros profissionais responsáveis pelo preparo dos lutadores devem ficar atentos sobre o “clima” do ambiente de treinamento.
Estudos indicam que os atletas acreditam que o treinador é a principal força na criação do clima motivacional. Verificou-se que os atletas de superelite tendem a preferir e responder melhor a um clima motivacional que enfatiza o domínio (aprendizagem, aquisição de competência física e/ou técnico-tática) do que o desempenho (resultados, ganho de competições). Os atletas nesse nível de excelência devem ser cercados por outros indivíduos que compartilham de seu compromisso com a aprendizagem de alto nível. Eles querem ser desafiados, mas também querem apoio, amizade. Afinal, é difícil se concentrar inteiramente nos treinamentos quando se está inseguro sobre a estabilidade de seu relacionamento amoroso, familiar ou situação financeira.

 

Leandro Paiva é professor de educação física e autor do livro Pronto Pra Guerra.  Já auxiliou na preparação de atletas de ponta como Ricardo Arona e Bibiano Fernandes. Ele colabora com este blog toda semana. Leia outros textos dele aqui. Para saber mais sobre o autor e o livro entre em http://www.prontopraguerra.com.br/ e conheça também o Pronto pra Guerra TV.

 

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